Unicamp inclui obras escritas por mulheres na lista de leituras obrigatórias – Araraquara News

Unicamp inclui obras escritas por mulheres na lista de leituras obrigatórias

Marina Teodoro

Na lista dos 12 livros obrigatórios para o vestibular do ano que vem, Unicamp inclui o diário de Carolina Maria de Jesus e a poesia de Ana Cristina Cesar

Obras de Ana Cristina Cesar e Maria Carolina de Jesus serão incluídas na lista de leituras obrigatórias da Unicamp

Obras de Ana Cristina Cesar e Maria Carolina de Jesus serão incluídas na lista de leituras obrigatórias da Unicamp

Foto: Reprodução/Twitter

Nesta semana, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) divulgou a lista de livros de literatura que fazem parte da leitura obrigatória para o vestibular de 2019, que será realizado no ano que vem. A relação conta com três novidades, sendo, duas delas, obras de autoria feminina: o livro de poesia “A teus pés” de Ana Cristina Cesar, e o diário de Carolina Maria de Jesus “Quarto de Despejo”.

Como de praxe, a Unicamp pede para que os vestibulandos leiam 12 obras que serão questionadas na prova, e, até este ano, apenas uma autora mulher fazia parte deste quadro, sendo Clarice Lispector, com o conto “Amor”, do livro Laços de Família.

A ampliação no número de escritoras foi vista como um avanço e um ganho para os alunos e alunas que farão o exame. “A inclusão da Ana Cristina Cesar e Maria Carolina de Jesus é fantástica. Acho isso de uma representatividade política enorme”, declara a coordenadora de Linguagens e educadora de Literatura no Curso Mafalda Renata Cristina Pereira.

No caso de Maria Carolina de Jesus, que é mulher, negra, periférica e autora, Renata fala da necessidade desse perfil ser estudado em um dos vestibulares mais importantes do país. “Ela escreve sobre sua vida, sobre o lugar em que vive. O livro versa sobre essa realidade que é a realidade de muitos dos estudantes brasileiros e não podemos ignorar isso”, lembra a educadora.

Quanto à menção de Ana Cristina Cesar na relação da universidade, Renata elogia a iniciativa. “Ter a poesia presente, poesia contemporânea, que durante muito tempo foi marginalizada, ocupando espaço entre os jovens e estudantes só aumenta o repertório deles.”

Para Juliana Gomes que é coordenadora nacional do grupo Leia Mulheres, um clube de leitura que incentiva o contato com obras feitas por mulheres, vê a atitude da instituição como o início de um caminho longo a ser percorrido até a igualdade entre autores homens e mulheres.

“Ainda persiste a ideia de que a produção das mulheres é algo menor, que gira em torno de temas familiares e domésticos. Se as autoras não são lidas por causa dessa ideia, ou seus livros são encarados a partir da perspectiva de que literatura feita por mulher só de vez em quando lida com temas universais, ou as escritoras e acadêmicas são ignoradas ou esquecidas”, analisa Juliana.

 Inclusão dos nomes femininos é reflexo da sociedade atual

Outro ponto que não pode ser deixado de lado é que os assuntos trazidos por essas autoras, seja por meio de suas obras ou análise de suas vidas, estão ganhando cada vez mais espaço em discussões sociais, que antes eram abafados ou negligenciados.

Para Renata, o fato dos nomes estarem na lista calha com o período histórico que está sendo presenciado hoje. “Questões que colocam em pauta as minorias, a sexualidade – tendo em vista a bissexualidade de Ana Cristina Cesar -, o movimento negro, o movimento feminista… esses temas tem tudo a ver o momento que estamos vivendo.”

Outras mulheres

A escritora Clarice Lispector era%2C até então%2C a única representante feminina na lista das leituras obrigatórias da Unicamp

A escritora Clarice Lispector era%2C até então%2C a única representante feminina na lista das leituras obrigatórias da Unicamp

Foto: Reprodução/Twitter

No entanto, a falta de representatividade feminina nas literaturas estudadas nas instituições e exigidas em vestibulares não condiz com a realidade. “Mulheres escrevem também de maneira universal e precisam ser lidas nas escolas e vestibulares”, defende a coordenadora do Leia Mulheres.

Leia também:   Ministério da Educação descredencia 32 instituições de educação superior

Durante muito tempo,  mulheres e suas descobertas e criações foram apagadas da história e as consequências desse longo período ainda são refletidas no corpo social. “Na literatura isso não é diferente. O mercado editorial ainda vende muito mais livros escritos por homens e histórias de homens, que falam sobre homens, por exemplo”, complementa Renata.

Anteriormente, alguns nomes consagrados como o de Cecília Meireles, Clarice Lispector ou Rachel de Queiroz já haviam sido, ou são, parte do catálogo de obras estudadas no período escolar, mas mesmo com tantas outras autoras que poderiam facilmente receber o mesmo prestígio, a presença feminina se manteve limitada até então.

Com a repetição das mesmas escritoras, e sem inclusão de novas personalidades, o estudante acaba perdendo repertório, e oportunidade de conhecer diferentes maneiras de escrita, conforme explica a coordenadora de Linguagens do Curso Mafalda. “Estudar Cecília Meireles não quer dizer que não é valido. Mas a poesia dela é totalmente diferente da Ana Cristina Cesar, que ocupa um lugar da marginalidade, pouco explorado até o momento.”

Cecilia Meireles é uma das poucas mulheres escritoras, consagradas da literatura nacional, estudada nas escolas

Cecilia Meireles é uma das poucas mulheres escritoras, consagradas da literatura nacional, estudada nas escolas

Foto: Reprodução/Twitter

Segundo a educadora, o contato com assuntos diversos na literatura é bastante poderoso, e pode, inclusive, influenciar a maneira como as pessoas agem perante a sociedade. “Eu acredito que a literatura tem papel fundamental no que diz respeito à espirito de alteridade, ou seja, na sua capacidade de se colocar no lugar do outro. Sinto que a literatura exerce esse papel na vida do sujeito que realiza leituras.”

Fuvest

A Universidade de São Paulo, que tem o vestibular administrado pela Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), também incluiu no vestibular 2018, que acontecerá neste ano, o nome de outra representante feminina. A relação, que estava sendo composta unicamente por escritores homens, agora vai deixar de contar com a obra “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, para dar lugar à “Minha vida de menina”, de Helena Morley.

Lista obrigatória

Em nota, a Comissão Permanente para os Vestibulares, que é responsável pela elaboração das provas da Unicamp, declara que “as obras […] possuem relevância estética, cultural e pedagógica para a formação dos estudantes do ensino médio”.

Junto às 12 literaturas que são recomentadas pela instituição, o romance “História do Cerco de Lisboa”, de José Saramago, é a terceira novidade que fez parte da modificação parcial para o vestibular de 2019.

Confira a lista completa dos livros recomendados pela universidade para quem vai prestar a prova no ano que vem:

Poesia

  •  Luís de Camões, Sonetos*
  • Jorge de Lima, Poemas Negros
  • Ana Cristina Cesar, A teus pés
  • * Para ver os selecionados, acesse a página da Comvest.

Contos

  • Clarice Lispector, Amor, do livro Laços de Família
  • Guimarães Rosa, A hora e a vez de Augusto Matraga, do livro Sagarana
  • Machado de Assis, O espelho

Teatro

  • Dias Gomes, O bem amado

Romance

  • Camilo Castelo Branco, Coração, cabeça e estômago
  • Érico Veríssimo, Caminhos Cruzados
  • José Saramago, História do Cerco de Lisboa

Diário

  • Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo

Sermões

  • Antonio Vieira
  • Sermão de Quarta-feira de Cinza – Ano de 1672
  • Sermão de Quarta-feira de Cinza – Ano de 1673, aos 15 de fevereiro, dia da trasladação do mesmo Santo
  • Sermão de Quarta-feira de Cinza – Para a Capela Real, que se não pregou por enfermidade do autor

De acordo com a Unicamp, a relação de livros obrigatórios sempre é renovada parcialmente a cada ano para permitir planejamento de docentes e acompanhar a dinâmica do sistema de ensino.

 

Fonte IG

veja mais

Enem: entenda o aumento da taxa de isenção