O cenário da saúde mental em Belo Horizonte é preocupante. Enquanto a procura em Centros de Referência em Saúde Mental (Cersams) aumentou em 106%, apenas 28 psiquiatras atendem nos 152 postos de saúde na capital. O ideal seria um psiquiatra a cada três centros de saúde, inclusive há vagas disponíveis, de acordo com dados da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). O mês de agosto com os dias do Psiquiatra e do Psicólogo é um período importante para refletir sobre essa situação e como revertê-la.
A falta de psiquiatra no SUS-BH é decorrente de vários fatores, como as más condições de trabalho, baixos salários e estrutura deficiente. Em contrapartida, o número de pessoas com transtornos mentais não para de subir, principalmente, ligados à aprendizagem, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), cuja procura costuma ser superior a 80% nas unidades públicas.
A verdade é que, pela ausência de profissionais qualificados, médicos generalistas acabam assumindo esse atendimento, situação muito inadequada, já que não possuem conhecimentos adequados sobre o tema para iniciar o primeiro contato e dar continuidade ao tratamento. Mesmo com as promessas de investimento, é fundamental valorizar os especialistas em saúde mental, caso contrário, será desafiador reverter esse cenário.
A demanda por tratamentos para problemas de saúde mental tende a crescer cada vez mais. Diariamente, as pessoas com sintomas de ansiedade e depressão, consideradas o mal do século, procuram os centros de saúde para auxílio e tratamento com psiquiatras e psicólogos, buscando melhor qualidade de vida.
E, infelizmente, isso não é uma realidade exclusiva da capital mineira ou do país. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), atualmente, uma a cada oito pessoas apresenta adoecimento mental, o que equivale a aproximadamente 1 bilhão da população mundial, número que cresce paulatinamente.
As ocorrências mundiais de ansiedade e depressão subiram cerca de 25%, sendo que o desemprego e o cenário econômico contribuíram bastante para este crescimento. Muitas pessoas perderam empregos, clientes e investimentos com a pandemia e, infelizmente, também a motivação e esperança em dias melhores.
Muitas pessoas ainda vêem o tema das doenças mentais como um tabu, e as consideram como frescura ou “mi mi mi”, problemas de pessoas com cabeça fraca ou “doidas”. Contudo, não é nada disso. Se a mente não está saudável, o corpo também não fica bem e outras patologias podem surgir ou se agravar. A saúde mental em equilíbrio permite adequada ponderação, domínio próprio e flexibilidade cognitiva, que mantém o equilíbrio diário de qualquer ser humano. Os casos de suicídio, por exemplo, se intensificaram durante a crise sanitária, que trouxe o medo, insegurança e a necessidade de se isolar em casa.
Quadros moderados e graves de transtornos mentais são tratados com medicamentos a curto prazo, indicados pelos profissionais. Porém, os casos mais leves devem ser cuidados com mudanças no estilo de vida, como melhorar a alimentação e o sono, além da prática de atividades físicas.
A situação da saúde mental em Belo Horizonte merece uma melhor fase, com salários maiores para os psiquiatras e psicólogos, melhor investimento em infraestrutura e boas condições de trabalho. Um médico de saúde mental a cada três centros de saúde é o mínimo para um atendimento digno e qualificado para toda a população.
O aumento mundial dos casos de ansiedade e depressão tem de ser revertido, a partir da capital mineira, com investimentos adequados para ocupar as vagas disponíveis para psiquiatras e psicólogos nos centros de saúde. A mudança mundial deve começar dentro de casa. Mais médicos na área de saúde mental sendo valorizados pelo governo para melhorar a qualidade de vida da população.
*** Ângela Mathylde Soares – PHD em neurociência, psicanalista e psicopedagoga