*** Ângela Mathylde Soares – Neurocientista, psicanalista e psicopedagoga
A fome é um problema brasileiro recorrente. Nos últimos anos, o país enfrentou essa situação crescente, sendo inserido no mapa da fome, durante o triênio 2018-2020. Agora, a melhoria dos resultados mais recentes permitiu deixar esse mapa. A insegurança alimentar é uma condição séria e, não apenas relacionada à fome, uma vez que compromete a saúde, inclusive, a mental.
Em 2024, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou um estudo revelando que, aproximadamente, 27,6% dos lares brasileiros convivem com a insegurança alimentar, atingindo mais mulheres e negros, assim como a população nas regiões Nordeste e Norte, sobretudo, nas áreas rurais.
O mapa identifica o número de pessoas enfrentando a fome e a insegurança alimentar no mundo. O tema é foco da Organização para Alimentação e Agricultura (Food and Agriculture Organization - FAO), pertencente à Organização das Nações Unidas (ONU), responsável pelo levantamento.
O mapeamento é anual e considera as populações sem acesso à comida ou alimentos inadequados ou insuficientes para o considerado essencial à manutenção de uma vida saudável. Um dos critérios para inclusão é que, pelo menos 2,5% da população conviva com a falta crônica, considerando diferentes indicadores, como a profundidade da fome, desnutrição e a identificação de populações em situações de maior vulnerabilidade.
O Brasil retomou o patamar similar ao de 2014, quando saiu do mapa pela primeira vez, após mais de dez anos. Para se ter uma ideia, em 2024, o índice foi de 1,7%, uma taxa recorde, segundo o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias. A expectativa é terminar 2025 com índices ainda melhores devido a diferentes políticas públicas.
A estimativa da ONU é, até 2030, acabar com a fome e garantir o acesso de todas as pessoas a alimentos considerados seguros, nutritivos e suficientes para o consumo ao longo do ano e demandas das estações.
A denominação “insegurança alimentar” é mais usada para a falta de acesso regular e suficiente a alimentos, variando de leve a grave. O termo não quer dizer, necessariamente, que se trata de uma subalimentação, contudo, a incerteza eleva o risco para questões como ansiedade e depressão.
O primeiro transtorno é considerado frequente em um cotidiano de incertezas, cujos sentimentos são ampliados pela ativação constante do sistema de resposta ao estresse, liberando hormônios como o cortisol. A tendência é a situação ganhar novas proporções, ficando mais difíceis de serem trabalhadas, evoluindo para depressão, provocando uma sensação de impotência ainda maior, já que ter acesso a alimentos é uma necessidade básica.
Além disso, a situação ainda pode, até mesmo, levar essas pessoas a realidades que elas considerem vergonhosas, gerando sentimentos como culpa. O fato aumenta os sintomas de transtornos mentais, o isolamento social e afeta ainda mais a qualidade de vida, dificultando tratar mente e compulsões, devido a estrita relação entre cérebro e estômago.
O equilíbrio e bem-estar psicológicos são essenciais, contudo a desigualdade social ainda é uma grande barreira para muitos terem acesso a essa qualidade de vida. Os governantes devem se preocupar com a erradicação da fome, mas, também, ampliarem o foco para projetos de apoio psicológico.