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ESPECIAL - ALTAMIRA (PA) - Nossa equipe percorreu 2.844 quilômetros para chegar à região dos povos da Volta Grande do Xingu, no Pará. Localizada a cerca de 100 quilômetros por estrada que liga à Altamira, a vida segue em outro ritmo, cercada pela floresta, pelo Rio Xingu e por uma realidade distante da infraestrutura e das oportunidades encontradas nos grandes centros urbanos. Mas a distância não diminui a dimensão do que acontece ali: o envelhecimento também chega a essas comunidades, com desafios próprios de quem vive em territórios onde acesso à renda, saúde, transporte, saneamento e serviços financeiros ainda é limitado.
O Brasil que envelhece é também este. E, embora os povos indígenas façam parte da população brasileira, suas experiências ainda costumam desaparecer quando o envelhecimento é tratado apenas a partir da realidade das cidades. O Censo 2022 mostrou que 10,65% dos indígenas no Brasil têm 60 anos ou mais, cerca de 180,5 mil pessoas. Doze anos antes, eram 71.413.
Em números absolutos, o contingente indígena nessa faixa etária cresceu aproximadamente 153% entre 2010 e 2022. A participação dos 60+ também aumentou: passou de cerca de 8% para 10,65% da população indígena no período, embora o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) ressalve que mudanças metodológicas entre os censos exigem cautela na comparação.
Ainda assim, os povos indígenas têm uma estrutura etária mais jovem que a população total do Brasil. A idade mediana é de 25 anos, contra 35 anos no conjunto do país; dentro das Terras Indígenas, cai para 19 anos. Para cada 100 indígenas de até 14 anos, há 35,55 com 60 anos ou mais. No Norte, onde está a Volta Grande do Xingu, a relação é ainda menor: cerca de 20 idosos para cada 100 crianças e adolescentes de até 14 anos. Isso não torna a velhice menos presente. Ao contrário: revela uma geração que cresce numericamente em meio a um território onde envelhecer significa lidar não apenas com aposentadoria e renda, mas com as condições concretas para continuar vivendo.
É no trabalho que começa a história de Marcos Omágua-Yetê, 68 anos. Todas as vezes que a mandioca chega à casa de farinha, ele sabe exatamente o que precisa ser feito. As raízes são descascadas, lavadas e raladas até virar uma massa úmida, que passa por um longo processo de prensagem para retirar o tucupi. Depois de peneirada, a massa vai ao forno, onde é torrada e mexida continuamente até perder a umidade e ganhar a textura característica da farinha. É um trabalho que exige força, tempo e experiência, e que Marcos aprendeu muito antes de imaginar que um dia precisaria ensinar a outras pessoas.
A farinha é uma das principais fontes de renda da comunidade. Quando há mandioca suficiente para a produção, a aldeia consegue preparar entre 10 e 20 sacos de 25 quilos por mês, ou até 500 quilos de farinha. O que é produzido segue para armazéns de Altamira e também para Vitória do Xingu, município vizinho. O dinheiro obtido com as vendas é dividido entre as famílias que participam das diferentes etapas do processo, fazendo da casa de farinha não apenas um espaço de produção de alimentos, mas também de geração e distribuição de renda.
Ele afirma ter disposição para o trabalho e diz gostar do que faz. Mas a preocupação com o futuro já faz parte da rotina. Ele sabe que a força para raspar mandioca, prensar a massa e permanecer horas diante do forno não será a mesma para sempre. Por isso, enquanto continua trabalhando, também prepara os filhos e os mais jovens para aprender o ofício.
“Eu ainda tenho vontade e gosto de fazer a farinha. Enquanto eu puder trabalhar, vou continuar. Mas eu sei que um dia os mais novos vão precisar assumir. Por isso eu ensino meus filhos, ensino os outros que estão aqui. Não adianta eu saber fazer e guardar comigo. Se ninguém aprender, quando nós, os mais velhos, não tivermos mais força, quem vai fazer? A farinha é comida, mas também é o dinheiro que ajuda as famílias daqui”, diz.
O sonho da aposentadoria
A preocupação de Marcos Omágua-Yetê com o futuro ganhou outro significado no fim de 2024, quando ele passou a ter acesso a uma renda que não vinha diretamente da roça. Com a ajuda dos filhos, reuniu documentos para comprovar perante a Funai o exercício da atividade rural e conseguiu ser reconhecido como segurado especial do INSS. Para indígenas que exercem atividade rural individualmente ou em regime de economia familiar, a condição de segurado especial pode ser comprovada pela Fundação, por meio da Certidão de Exercício de Atividade Rural Indígena (CEAR).
A conquista representa uma mudança importante para quem passou décadas vivendo da produção e sem uma renda previdenciária regular. A aposentadoria não substituiu a farinha, nem parece ser essa a intenção de Marcos. Ela passou a funcionar como uma segunda camada de segurança em uma vida na qual a renda do trabalho depende da colheita, da quantidade de mandioca disponível e da capacidade física para continuar produzindo.
“Eu trabalhei a vida inteira. Nunca pensei que um dia teria esse dinheiro todo mês. Quando consegui resolver os documentos, fiquei contente porque é uma segurança. Mas não quer dizer que eu vou parar. Eu ainda quero fazer minha farinha, quero ajudar minha família e quero ensinar os mais novos. O benefício ajuda, mas o nosso trabalho também tem valor. É dele que muita gente aqui vive", relata.
A história de Marcos revela uma particularidade da longevidade financeira entre os povos indígenas, a aposentadoria e o trabalho não necessariamente competem entre si. Para quem continua produzindo, o benefício previdenciário pode significar uma renda mais previsível, enquanto a atividade tradicional permanece como fonte de sustento e de renda coletiva. E, nesse caso, o conhecimento de um homem de 68 anos também funciona como uma espécie de patrimônio: enquanto ele puder transmiti-lo, a produção pode continuar circulando entre as famílias.
No caso dos indígenas, a própria Previdência reconhece uma condição específica para quem vive da atividade rural. O trabalhador indígena que tem na agricultura, no extrativismo, na pesca artesanal ou no artesanato sua principal forma de sustento pode ser enquadrado como segurado especial, desde que cumpra os requisitos previstos. A documentação da Funai é parte importante desse processo de comprovação.
Para a artesã Sandra Kayabi, de 62 anos, a Previdência ainda não chegou. Mãe de nove filhos e avó de 16 netos, a cacica já atingiu a idade mínima, mas ainda não conseguiu comprovar o tempo necessário de atividade rural para ter acesso ao benefício. Enquanto aguarda, continua trabalhando e ajudando a movimentar uma das principais fontes de renda das mulheres da comunidade.
Sandra coordena um grupo de geração de renda coletiva formado por mulheres indígenas que transformam folhas, palhas e retalhos em peças de artesanato. O trabalho começa dentro da comunidade e termina a dezenas de quilômetros dali, em uma pequena feira de artesanato no centro de Altamira, onde os produtos são colocados à venda. O dinheiro obtido com as peças retorna para as mulheres que participam da produção e ajuda a complementar o orçamento de suas famílias.
“Temos que trabalhar bem cedo, até umas 16h, porque ainda está claro. A gente aqui só tem energia por volta de 18h e ela só fica até 22h, quando ela é desligada, então temos que produzir enquanto a gente tiver força pra trabalhar e cuidar dos filhos e netos", comenta.
Sandra atualmente tem nove filhos, sendo um já falecido e mais 16 netos. "Então, eu não posso pensar só em mim. O artesanato ajuda dentro de casa e também ajuda outras mulheres. A gente produz, leva para a cidade e vende. É um dinheiro que entra para nós, que não depende de ninguém. Eu ainda não consegui minha aposentadoria, então preciso continuar trabalhando. Também quero ensinar as meninas mais novas, porque esse conhecimento não pode acabar quando nós, as mais velhas, não estivermos mais aqui. Então, a gente acaba se ajudando”, afirma Sandra.
Na aldeia, ser idoso é cumprir função social
A experiência dos povos indígenas diante do envelhecimento expõe uma particularidade que nem sempre aparece nas discussões sobre renda e longevidade. Isso quer dizer que o valor econômico de uma atividade não necessariamente coincide com seu valor social. Na perspectiva de Leonardo Figueira, professor e Mestre em Ciências Sociais da PUC-SP, a economia indígena articula diferentes formas de produzir, distribuir e consumir, nas quais o dinheiro é apenas uma das dimensões das relações econômicas.
Segundo ele, a coexistência entre diferentes racionalidades econômicas ganha complexidade quando práticas e conhecimentos tradicionais passam a ser incorporados a circuitos de mercado. O que antes era produzido prioritariamente para alimentar, cuidar ou organizar a vida coletiva pode também adquirir um preço. Mas, para Figueira, essa transformação não é neutra: ela coloca em discussão quem decide o que pode ser comercializado, quem se apropria do valor gerado e até que ponto a inserção no mercado preserva ou altera a relação dos mais idosos com o seu próprio conhecimento.
“A agricultura, a pesca, a coleta, a caça e o artesanato estão relacionados à alimentação, à cultura, ao território, à transmissão de conhecimentos e à identidade de cada comunidade. Quando um alimento é produzido no território indígena, ele não representa apenas um produto econômico. Ele está relacionado a conhecimentos sobre a terra, as sementes, os ciclos da natureza e as formas coletivas de cuidar do território que é passado de geração em geração. Por isso, é preciso ter cuidado para não transformar todo conhecimento tradicional em mercadoria”, analisa.
É justamente nessa fronteira entre conhecimento, trabalho e valor que o envelhecimento de uma aldeia ganha uma dimensão particular. Se, em uma sociedade urbana, a passagem para a velhice costuma ser associada à saída do mercado de trabalho, em muitas sociedades indígenas a experiência acumulada pode continuar produzindo efeitos concretos sobre a vida coletiva.
O docente afirma: "O idoso não é apenas alguém que recebe uma renda. Ele é também alguém que concentra conhecimentos que não estão necessariamente registrados em documentos, mas são transmitidos pela convivência, pelo olhar, a oralidade e pela prática", entende. Em outras palavras, segundo Figueira, o envelhecer indígena precisa ser compreendido para além da ideia de aposentadoria ou de perda da capacidade produtiva.
"Em muitas áreas indígenas pelo Brasil, as pessoas mais velhas possuem uma função social fundamental porque carregam conhecimentos sobre a história do seu povo, da língua, os territórios, as plantas, os alimentos, os rituais, os modos de cuidar e as formas tradicionais de organização da comunidade. Por isso, uma pessoa idosa pode deixar de realizar determinadas atividades físicas e continuar exercendo uma função social e cultural extremamente importante”, comenta.
Autonomia coletiva está atrelada ao envelhecer
Na vida, ter uma renda pode significar maior segurança material, mas, no contexto indígena, a autonomia está vinculada a condições mais amplas, como a de permanecer no território, participar de decisões, controlar os próprios conhecimentos e determinar os caminhos de desenvolvimento da comunidade. A questão, portanto, não é apenas quanto dinheiro chega às aldeias, mas quem define as condições pelas quais esse dinheiro é produzido.
É nesse ponto que a discussão sobre novas oportunidades de renda encontra seu principal dilema. A abertura de mercados pode criar alternativas econômicas e ampliar a circulação de produtos indígenas, mas também pode produzir relações de dependência ou estimular a apropriação de conhecimentos que foram construídos coletivamente ao longo de gerações. Para o Leonardo Figueira, o desenvolvimento econômico só se sustenta quando a comunidade permanece sujeito e, não objeto desse processo.
“Penso que um dos maiores desafios é fazer com que as políticas públicas sejam construídas com os povos indígenas e não simplesmente para os povos indígenas. É possível gerar renda com agricultura, artesanato, extrativismo, turismo e outros projetos, mas essas iniciativas precisam respeitar o protagonismo indígena e a proteção dos conhecimentos e das expressões culturais. Desenvolvimento não deve significar deixar de ser indígena", pontua.
E, na Volta Grande do Xingu, o envelhecer de Marcos e Sandra, pode ser justamente isso: ter vivido o suficiente para guardar uma história e permanecer tempo suficiente para entregá-la a quem vem depois. "A vida não é fácil, mas estar aqui com quem a gente ama, não tem preço", conclui Sandra Kayabi.
Publicado por:
Dione Alves
Dione Alves é um jornalista diplomado pela PUC Minas e especialista em Jornalismo em Ambiente Digital, conhecido por sua atuação como repórter no portal g1 e produtor de reportagem na TV Globo. Ele acumulou passagens por outros veículos de imprensa...
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