As altas taxas de analfabetismo brasileiras não são recentes e, infelizmente, estão longe de serem resolvidas. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), reafirmam que a questão ainda apresenta característica estrutural e, ao comparar a evolução entre 2022 e 2023, a queda de pessoas iletradas foi de apenas 0,2%, ou seja, o equivalente a 232 mil brasileiros.
É mais natural pensar que os elevados índices de analfabetismo se concentram entre os idosos. Afinal, a PHD em neurociência, psicanalista, psicopedagoga e professora, Ângela Mathylde Soares, lembra que no período e contexto em que nasceram, era mais difícil frequentar uma escola, quer seja pela condição social, devido à necessidade de ajudar a família, desde cedo, assim como a disponibilidade de escolas próximas para facilitar o deslocamento.
Vale refletir também que não havia o apelo de se aprender a ler e a escrever. A situação era ainda mais comum entre elas, muitas vezes, em razão do cotidiano, pois, ao crescerem, deveriam cuidar do lar, marido e filhos. A pesquisa apontou que, até 2023, a estimativa era de que 5,2 milhões de idosos ainda fossem analfabetos no Brasil, correspondendo a uma média de 15,4% desta parcela da população.
A cor da pele também influencia os números, sendo mais aparente neste, uma vez que a taxa de analfabetismo entre brancos é de 8,6%, e 22,7% em negros. Já para os adolescentes, considerando a faixa etária de 15 a 18 anos, essa porcentagem equivale a 5,4%.
O levantamento registra 9,3 milhões de pessoas com 15 anos ou mais, analfabetas, em 2023, representando, aproximadamente, 5,4% da população. A maioria (54,7%), vive no Nordeste e, 22,8%, no Sudeste. A estimativa era 18% de brasileiros incapazes de ler ou escrever, nos anos 1990.
Considerando os mais jovens, a pandemia atrasou a alfabetização de milhares de crianças, impossibilitadas de frequentar a escola devido à contaminação pelo vírus. Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) confirmou a realidade brasileira que, entre 2019 e 2022, a proporção de crianças de 7 anos sem ler e escrever passou de 20% para 40%.
O mesmo se repete entre aquelas de 8 e 9 anos. No primeiro grupo, a taxa passou de 8,5% para 20,8%, já no segundo, a variação é um pouco menor, mas também significativa, passando de 4,4% para 9,5%.
Além do covid-19, também é preciso destacar o abandono escolar. Chamada de “Juventude fora da escola”, a pesquisa da Fundação Roberto Marinho, em parceria com o Itaú Educação e Trabalho, revelou que mais de 9 milhões de jovens brasileiros, entre 15 e 29 anos, não terminaram a educação básica, envolvendo a educação infantil, o ensino fundamental e o médio. Além disso, 27% deles não teriam interesse em retomar os estudos, obrigando o governo a elaborar medidas de incentivo, como o programa “Pé-de-meia”.
Ângela afirma que o analfabetismo impede o desenvolvimento de habilidades básicas, como resolver problemas da vida adulta de maneira independente e, até mesmo, conquistar uma melhor oportunidade de emprego. Os avanços, mesmo que pequenos, precisam ser celebrados, mas ainda há muito o que se adaptar, quando o assunto é a qualidade da educação.