João Roberto Kelly, autor de algumas das mais populares marchinhas de carnaval, acaba de lançar a canção “Eu sou gay”, em exaltação à comunidade LGBTQIAP+. O compositor é autor de clássicos atemporais como “Cabeleira do Zezé”, “Maria Sapatão” e “Mulata Bossa Nova”, músicas de teor preconceituoso banidas dos blocos por serem consideradas politicamente incorretas.
As mudanças como essas começam a indicar alterações de comportamento e o respeito necessário com pessoas e suas orientações sexuais. Embora a sociedade ainda tenha de evoluir muito em relação ao próximo e a questão sexual, felizmente, já se observa que, certos comportamentos, como as marchinhas ofensivas à comunidade LGBTQIAP+, não são mais tolerados e, até mesmo, começam a ser punidos.
O Carnaval sempre foi um referencial à comunidade LGBTQUIAP+, uma festa popular para todos se sentirem livres, esquecerem quem são e abandonarem os preconceitos, violências e repressão. No passado, era uma forma de, até demonstrar, como verdadeiramente queriam ser no cotidiano, se travestindo ou não. Era um momento maior de revelar para si e disfarçar para os outros, deixando a dúvida do “Será que ele é?”
Ao mesmo tempo, também funcionava como uma válvula de escape, um grito de liberdade e uma demonstração social que era possível ser o que quisesse. Contudo, passada a folia, tirada a fantasia, muitos retornavam aos armários da vida e ali “hibernavam” até a próxima oportunidade.
A verdade é que, para muitos, essa ainda é uma triste realidade. Entretanto, o público LGBTQUIAP+ é maioria nas folias dos blocos, das escolas de samba e referência nas gestões de muitos eventos carnavalescos, à frente de diretorias, de alegorias, adereços, alas inteiras e destaques. Dessa forma, estão demonstrando força e ocupando lugares com maestria, saber e competência, se tornando “mais aceitos”, sem mesmo ter de se esconder em fantasias e disfarces.
Infelizmente, outra situação adversa dessa época está nas dezenas de crimes e violência contra a comunidade LGBTQUIAP+. Muitas vezes, a intolerância é marcante, sendo necessária atenção e denunciar qualquer ato violento e abusivo. Para se ter uma ideia, pesquisa do #VoteLGBT, em 2019, registrou que 61% das pessoas desse grupo declararam ter sofrido assédio sexual, durante essa festa popular e 50% afirmaram já terem sofrido violência motivada por LGBTfobia.
A verdade é que , apesar de todos os desafios e dificuldades, a sociedade já apresenta evolução em relação a respeitar, aceitar e acolher membros da comunidade LGBTQUIAP+ em seus grupos. A condição é decorrente das diversas “lutas” diárias de muitos, anônimos ou não, empunhando e levantando a voz para que sejam respeitados e ouvidos.
A ocupação de postos fundamentais no mercado de trabalho brasileiro, que move o sistema de desenvolvimento econômico e social, já começou e abre espaço para deixar claro que amar iguais não deve ser mais uma diferença e nem motivo para engrossar minorias.
Quem ama igual já fez muito, já caminhou muito e, sabe que ainda tem, infelizmente, um longo caminho pela frente. É importante se organizar mais, associar, mobilizar e, principalmente, celebrar as conquistas e seguir feliz. O Carnaval não deve ser um subterfúgio. Não mais. Assim como qualquer festa, é um espaço mais que brasileiro de demonstração de felicidade. Hora de multiplicar vozes nas canções e cair na folia. Uma saudável celebração da tolerância e da vida.