Os dois últimos anos mudaram muita coisa e podemos dizer que a velha máxima de que nas dificuldades estão as oportunidades segue está valendo. A transformação digital, que há tempos vem mudando a vida em todos os âmbitos, foi acelerada de forma impensada nesses dois últimos anos, especialmente para responder às novas necessidades. Isso levou as empresas a se remodelarem e elas seguirão transformando cenários de olho no futuro, na inovação, na qualidade no trabalho e na sociedade.
Num primeiro momento, o isolamento, as mudanças radicais no estilo de vida e incertezas levaram a um esgotamento generalizado entre as pessoas e, por consequência, entre os trabalhadores. A ISMA-International Stress Management Association, com sede no Reino Unido, fez um levantamento sobre a Síndrome de Burnout, também conhecida como Síndrome do Esgotamento Profissional. Durante a pandemia, foi constatado que 44% dos entrevistados no Brasil disseram que o período de convívio com a Covid-19 agravou a sensação de esgotamento profissional. O problema afetou milhões de trabalhadores e o Brasil ficou à frente, ocupando o primeiro lugar no ranking de oito países pesquisados. Atrás do Brasil ficaram Singapura (com 37% dos entrevistados afetados pelo burnout), Estados Unidos (31%) e Índia (29%).
Neste ambiente, a TI-Tecnologia da Informação foi o suporte para quase tudo o que imaginamos e ganhou status para responder às novas necessidades pós-pandemia e expectativas para o futuro. Por isso, todas as áreas de TI estão em alta no mercado levando à valorização dos profissionais, que estão em falta. Várias pesquisas apontam a defasagem entre a quantidade de profissionais e oferta de vagas. O número de novos especialistas de TI no mercado formados a cada ano não é suficiente para as vagas abertas. Estudo da Faculdade de Economia da USP-Ribeirão Preto, aponta que o setor abrirá mais de 400 mil vagas até 2024.
Quais são os impactos desse movimento? As empresas se transformam para atrair talentos e responder aos desafios demandados pelo mercado e pela sociedade que surgiu no pós-pandemia. Num primeiro momento, vale a lei da oferta e procura: a profissão é muito demandada, os especialistas são valorizados, o profissional passa a escolher o que mais lhe interessa no momento da contratação e as empresas passam a ofertar mais atrativos; por fim, a sociedade é beneficiada com inovações. Mas isso não para por aí. Como a TI afeta quase todas as atividades do homem, também são impactadas outras áreas de negócios e da sociedade em geral.
Em contrapartida, tanto os profissionais, quanto as organizações e seus gestores vêm reagindo de olho nesse cenário. De um lado, os profissionais mais procurados mudaram as exigências nos processos de recrutamento e estão considerando tanto a oferta salarial quanto benefícios que anos atrás não eram prioridade, mas hoje são. Dentre esses benefícios estão desde a ergonomia dos móveis no ambiente de trabalho, até facilidades de horários, acesso a academia de ginástica, por exemplo; ou seja, eles passaram a considerar todo o “pacote” ofertado pelo contratante e não somente o salário, num olhar para a qualidade de vida.
Por outro lado, as organizações também estão acompanhando o movimento e têm apresentado ofertas mais atrativas para vagas em aberto, a fim de conquistar talentos no mercado de trabalho. As empresas passaram a encomendar mais pesquisas salariais com objetivo de mapear não apenas a remuneração salarial praticada pelo mercado, mas também os benefícios e atrativos que estão sendo oferecidos para atrair profissionais mantê-los na organização. A intenção é tornar a empresa mais competitiva e atrativa, o que acaba por diferenciá-la para toda a sociedade. Empresas melhores têm valor para seus empregados, ofertam produtos e serviços de mais valor e geram valores para toda a sociedade.
A Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação levantou que o déficit de profissionais da área deve chegar a 260 mil até o ano de 2024, numa comparação entre o aumento na oferta de novas vagas no setor e a capacidade de formação de alunos no Brasil. No contexto, também entram em alta outras profissões e negócios: profissionais de RH para recrutar esses e outros especialistas, professores para as escolas que formam estudantes e, se formos analisar em cadeia, chegaremos ao designer de móveis, ao professor, às famílias em suas casas, aos novos estilos de vida, cultura e comportamento.
Vários segmentos – uns mais, outros menos – foram mais demandados pelas transformações geradas em virtude da pandemia e podemos dizer que todas as especialidades têm seu papel neste novo mundo. Algumas profissões além da TI, como saúde, logística, consultorias em geral, já estão sendo melhor remuneradas e devem puxar outras.
O Estudo de remuneração da PageGroup para 2022 mostra que 55% dos cargos analisados tiveram ganho real salarial em relação ao ano anterior e 41% conquistaram reposição salarial ou manutenção. Já os que registraram queda somaram apenas 4% das posições.
É importante, enquanto empregado ou mesmo para quem quer ser empreendedor, conhecer suas habilidades e competências para aprimorar aquelas que estão em baixa ou conquistar outras. Esse autoconhecimento auxilia, inclusive, no desenvolvimento de habilidades que surgem em virtude de eventos como a pandemia ou acontecimentos mais localizados, não apenas de abrangência mundial. Já no outro lado, que é o das organizações, os gestores passarão a medir mais; ou seja, utilizar mais pesquisas salariais e de clima organizacional, por exemplo, a fim de monitorar o ambiente interno e externo para adequar mais prontamente as empresas e inovar. São as oportunidades que empregados e empregadores começam a vivenciar no pós-pandemia. E outras ainda surgirão.