Segundo Hilda Hilst, “Se me proponho ouvir. Vem do Nada. Dos vínculos desfeitos. Vem dos ressentimentos. E sibilante e lisaSe faz paixão, serpente, e nos habita”. A verdade é que o feminismo vem se tornando alvo de um tempero particular: a idossincrasia. Ela é culpada e responsável pela criação de estereótipos.
Etimologicamente, idiossincrasia surgiu do grego idiosskrasía, significando “temperamento particular”. Assim, tempera-se as ações com uma determinada disposição ou tendência. Há uma tendência no feminismo de viver na guerrilha com o homem e num eterno ressentimento.
Claro, recompor a mulher, que durante séculos viveu sobre a apologia do masculino, ou quando o masculino prevaleceu sobre a mulher, exige uma postura para nova autoridade e com ação focada em manter a mulher emancipada na sociedade.
É importante escrever um discurso diário, validando um tipo de conversão, visando persistência na abolição da dominação e uma resistência a eles, quando tentam avançar sinais para transitar livremente sobre ou acima dos direitos delas.
Contudo, não se deve generalizar. É possível vivenciar o feminismo sem tensão. Chega de rebelião que atrasa e bloqueia a nova cartografia das ações de emancipação da mulher. É retrocesso.
Para se encaixar no repertório das agendas verdadeiramente feministas, elas não precisam reeditar o mundo da paranóia. O feminismo não precisa ser apocalíptico; destruir o homem, pois, assim, acaba por destruir a mulher, afinal, vai consumi-la.
O ressentimento esconde muita coisa, sendo um tipo de possibilidade para a política. Muitas mulheres políticas e ativistas largam do ressentimento. É como se todo homem fosse culpado de qualquer uma das dificuldades delas, como se eles fossem responsáveis pelo que elas são. É um rancor eternizado e, por assim ser, quase autoriza, um outro sentimento: a vingança.
Não há tempo para isso no feminismo . Aliás, isso cansa e se torna um mar de oportunidade ao contra ataque das antifeministas. Prato quente para a extrema direita.
É preciso distinguir que a cólera não pode ser o tom. Penso na importância de todos os elementos, do conjunto e, um que nunca pode ser desprezado: há homens que discordam sonoramente do patriarcado e que como elas, insistem em movimentos pró-feministas e na dignidade das relações.
Muitas mulheres feministas constroem agendas e pontes feministas com homens.
Nem todo homem é assediador, agressor, ou pratica discriminação contra elas. O comportamento masculino não é um só.
O feminismo tem de considerar essas alianças. Quando sindrômico ou psicótico, quando tem mania de perseguição, quando interpreta errado; o feminismo delira. Pelo mundo, feministas estão atentas a essas catarses persistentes das mulheres que não viram a chave para o novo start: os homens são aliados e, não, inimigos.
*** Maria Inês Vasconcelos - advogada trabalhista, doutora em educação, pesquisadora