Celebrado nesta terça-feira (28) como o auge da campanha Julho Amarelo, o Dia Mundial de Luta contra as hepatites virais busca conscientizar a população sobre a prevenção, o diagnóstico e o tratamento dessas doenças no Brasil, instituídas oficialmente pela Lei nº 13.802/2019.
As hepatites virais causam infecções agudas ou crônicas no fígado e são classificadas pelos vírus A, B, C, D (Delta) e E. No cenário nacional, as infecções pelos tipos A, B e C são as mais prevalentes. O grande perigo reside no avanço assintomático da enfermidade, cujos sinais iniciais costumam ser confundidos com cansaço rotineiro, mal-estar e perda de apetite.
Segundo o médico Adriano Moraes, diretor da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) e da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), sintomas claros como olhos amarelados e urina escura só surgem em estágios avançados. "O fígado sofre em silêncio. A maioria das doenças hepáticas não causa dor no início", explica o hepatologista.
A falta de acompanhamento pode levar ao desenvolvimento de complicações graves, como cirrose e câncer de fígado. Conforme destaca Moraes, pacientes com complicações graves enfrentam alta mortalidade e frequentemente necessitam de transplante hepático.
Prevenção e testagem precoce
Para conter a evolução da doença, a SBH ressalta que o foco deve ser a vacinação, o diagnóstico precoce e a mudança de hábitos. Sem a devida intervenção, de 30% a 40% dos pacientes não tratados podem evoluir para quadros crônicos e graves ao longo da vida.
A imunização contra a hepatite B é universal e recomendada prioritariamente para profissionais da saúde, imunodeprimidos e pessoas com múltiplos parceiros. Já a vacina contra a hepatite A é indicada para crianças, viajantes e homens que fazem sexo com homens. Evitar o compartilhamento de itens cortantes e utilizar preservativos permanecem cuidados indispensáveis.
O especialista orienta ainda que todas as pessoas, especialmente maiores de 40 anos e públicos prioritários — como gestantes, pessoas privadas de liberdade e usuários de drogas —, realizem a testagem rápida pelo menos uma vez na vida.
Cuidados na gestação
Diante do risco de transmissão vertical da mãe para o bebê na gravidez ou durante o parto, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) defende a inclusão de testes de sangue na rotina do pré-natal.
O ginecologista Regis Kreitchmann alerta que prevenir a transmissão vertical evita que a criança desenvolva infecção crônica. "São exames simples, rápidos e acessíveis. Quanto mais cedo for identificada, maiores são as possibilidades de proteger a mãe e o recém-nascido", reforça o médico.
Gargalos no enfrentamento da doença
A Sociedade Brasileira de Hepatologia aponta obstáculos críticos no combate às infecções no país:
- Baixa cobertura vacinal contra hepatite B no SUS;
- Atrasos no diagnóstico e no encaminhamento a especialistas;
- Desigualdades na distribuição regional dos centros de referência;
- Abandono do acompanhamento por populações em situação de vulnerabilidade.
Estatísticas e transmissão no Brasil
Segundo o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais de 2025 do Ministério da Saúde, o Brasil confirmou 826.292 casos entre 2000 e 2024. O tipo C responde por 41,5% dos registros, seguido pelo tipo B (36,6%) e pelo tipo A (21,2%). Regionalmente, o Sudeste concentra a maior proporção dos vírus B e C, enquanto o Norte acumula 72,4% dos casos de hepatite D.
No mesmo período, o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) contabilizou 49.999 óbitos por causas básicas associadas às hepatites, sendo 75,3% decorrentes do vírus C.
Enquanto as hepatites A e E são transmitidas principalmente pela via fecal-oral, alimentos e água contaminada, os tipos B, C e D são contraídos por fluidos corporais, relações sexuais desprotegidas e contato sanguíneo. O governo federal disponibiliza o Guia para Eliminação das Hepatites Virais com metas para erradicar as doenças até 2030.
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