O cotidiano é cada vez mais intenso e corrido, a ponto de, muitas vezes, quase não sobrar tempo para analisar o que foi vivido, cada ocorrência, problema, vitórias e momentos, elaborando a situação com soluções que poderiam mudar os rumos, em busca de melhorias. Em um momento de grandes transformações sociais, tecnológicas e econômicas, temos dificuldades em lidar com a liminaridade, essa travessia ao longo de um mar de mudanças, em ritmo alucinante. As normas sociais, os conceitos de vida, os valores, tudo se tornou fluido e instável. A vida, na situação de liminaridade atual, nos estressa ao limite, reinando a incerteza e a indeterminação.
O termo “liminaridade” foi definido, por Victor Turner, como “a qualidade de ambiguidade ou desorientação no estágio intermediário de um rito de passagem, quando os participantes não mantêm mais o status pré-ritual, porém, ainda não começaram o status que terão, quando o ritual estiver completo”. Ou seja, as pessoas ficam em um estado de indeterminação por um período, sem qualquer percepção de melhoria. O tema, bastante atual e relevante para a sociedade atual, está presente de forma recorrente nos contos do meu recém-lançado livro “Travessias acidentais”.
As novas tecnologias apresentam novas oportunidades, mudando as fórmulas, anteriormente conhecidas, já vistas e amplamente utilizadas ao longo de décadas e, agora, provocando apenas a incerteza do amanhã. As redes sociais e o excesso de informações criaram outro problema: a super velocidade, obrigando a se fazer cada vez mais, tudo de maneira ágil, porque sempre tem outras coisas para se finalizar. Tempo é dinheiro.
As características da liminaridade provocam uma série de efeitos na saúde mental, como a ansiedade, depressão e as síndromes do pânico e burnout, decorrentes da sobrecarga e falta de tempo para cuidar de si próprio. Todas as pessoas possuem momentos de dificuldade em alguma fase de suas existências e, por mais desafiadoras que sejam, fazem parte do crescimento pessoal, como aprendizagem.
A verdade é que esses períodos são liminares, um meio termo até o encerramento do ciclo, contudo, para superá-los, é preciso ter autocontrole e reavaliar, sempre, a própria identidade, valores, conceitos e as relações diárias. Mesmo com as antigas fórmulas, em determinados momentos, a vida se apresenta como incerta e surpreendente, entretanto, nem por isso, deve-se deixar abalar por cada intercorrência.
A situação de liminaridade também é uma oportunidade de se desafiar, evoluir e testar a criatividade e as habilidades. Observar o cotidiano é parte da vida, mas essa característica tem sido, aos poucos, perdida na correria diária. Às vezes, o necessário é parar, respirar, olhar para seu próprio interior e ao redor, para as pessoas próximas, familiares, amigos, expandindo horizontes.
Os contos do meu novo livro apresentam diversas situações extremas provocando o leitor a perceber e avaliar os limites da liminaridade em sua própria vida. Ter um momento para si mesmo permite colocar os pensamentos em ordem e decidir, qual o melhor caminho a seguir, aquele que leva aos sonhos e anseios mais profundos. É preciso avaliar, através do autoconhecimento, nossa capacidade de constante ajuste às mudanças, certamente uma situação muito diferente das sociedades pré-industriais. A vida continua passando, é preciso de adaptação constante para vivê-la de forma adequada, só que agora em ritmo acelerado.
George Borten - Escritor em lançamento do 2º livro de contos “Travessias acidentais”
