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Terça-feira, 12 de Maio 2026
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Matrículas no ensino superior global mais que dobram, revela estudo da Unesco

Disparidades persistem: 80% dos jovens na Europa Ocidental e América do Norte estão no ensino superior, contra 59% na América Latina e no Caribe, aponta relatório.

Matrículas no ensino superior global mais que dobram, revela estudo da Unesco
© Marcello Casal JrAgência Brasil
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A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) divulgou nesta terça-feira (12), em Paris, um relatório global que indica um crescimento expressivo nas matrículas do ensino superior em todo o mundo. O número de estudantes matriculados mais que dobrou nas últimas duas décadas, saltando de 100 milhões em 2000 para 269 milhões em 2024, representando 43% da população entre 18 e 24 anos. Apesar dessa expansão, persistem profundas desigualdades regionais, com a América Latina e o Caribe registrando 59% de jovens no ensino superior, um contraste marcante com os 80% observados na Europa Ocidental e América do Norte.

As disparidades regionais se aprofundam ainda mais em outras partes do globo, onde a taxa de matrículas no ensino superior atinge 37% nos Estados Árabes, 30% no Sul e no Oeste da Ásia, e apenas 9% na África Subsaariana. O estudo da Unesco, que reúne dados de 146 países, é o primeiro a traçar um panorama global das tendências na educação superior.

No cenário global, as instituições privadas continuam a responder por um terço das matrículas, com a maior participação na América Latina e no Caribe, alcançando 49% em 2023. Em nações como Brasil, Chile, Coreia do Sul e Japão, quatro em cada cinco estudantes optam por uma instituição privada. O relatório também destaca que apenas um terço dos países assegura legalmente o ensino superior público gratuito. Contudo, a taxa bruta global de graduação, que subiu de 22% em 2013 para 27% em 2024, não acompanhou o ritmo acelerado das matrículas.

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Demanda crescente e desafios de equidade

Khaled El-Enany, diretor-geral da Unesco, ressaltou que o relatório evidencia a demanda crescente por ensino superior no planeta, reconhecendo seu papel fundamental na construção de sociedades sustentáveis. Ele alertou, no entanto, que essa expansão nem sempre se traduz em oportunidades equitativas, sublinhando a urgência de desenvolver modelos de financiamento inovadores que garantam um ensino superior inclusivo e de qualidade para todos.

El-Enany reafirmou o compromisso da Unesco em apoiar os países na oferta de oportunidades de ensino superior de alta qualidade, por meio de iniciativas como a Convenção Global sobre a Educação Superior e o Passaporte de Qualificações.

Aumento da mobilidade internacional

No período analisado, a mobilidade internacional de estudantes triplicou, passando de 2,1 milhões em 2000 para quase 7,3 milhões em 2024. Metade desses estudantes escolhe a Europa e a América do Norte como destino. Apesar do crescimento, a Unesco observa que a mobilidade beneficia apenas 3% do total de estudantes globalmente, com disparidades significativas entre as regiões.

Um grupo de sete países — Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia — continua a receber metade de todos os estudantes internacionais. Paralelamente, nações como Turquia e Emirados Árabes Unidos (EAU) ganham popularidade, registrando um crescimento de pelo menos cinco vezes no número de estudantes estrangeiros na última década, aproximando-se da França como destinos.

O relatório também aponta uma crescente preferência por estudar dentro da própria região. Na América Latina e no Caribe, por exemplo, a mobilidade intrarregional aumentou de 24% para 43% entre 2000 e 2022, com a Argentina sendo o principal destino. Similarmente, estudantes dos Estados Árabes concentram-se cada vez mais nos países do Golfo e na Jordânia, marcando uma mudança em relação ao domínio anterior da Europa Ocidental e América do Norte.

A Unesco, por meio de sua Convenção Global sobre o Reconhecimento de Qualificações relativas ao Ensino Superior e instrumentos regionais equivalentes, já ratificados por 93 países, desempenha um papel crucial na promoção da mobilidade estudantil internacional.

A Convenção estabelece mecanismos justos e transparentes para o reconhecimento de qualificações, bem como padrões universais de garantia da qualidade, fortalecendo a confiança nos diplomas e nas qualificações do ensino superior em todo o mundo.

Equidade de gênero e outros desafios

Atualmente, as mulheres superam os homens no ensino superior globalmente, com 114 mulheres matriculadas para cada 100 homens em 2024. A paridade de gênero foi alcançada em todas as regiões, exceto na África Subsaariana, onde as taxas de matrícula e conclusão permanecem mais baixas.

Houve um avanço notável na Ásia Central e no sul da Ásia, que alcançaram a paridade de gênero em 2023, partindo de um cenário de 68 mulheres matriculadas por 100 homens em 2000. No entanto, as mulheres ainda estão subrepresentadas no nível de doutorado e ocupam apenas cerca de um quarto dos cargos de liderança sênior no meio acadêmico.

A Unesco identificou que equidade, qualidade e financiamento são desafios urgentes para os estudantes do ensino superior global. Apenas um terço dos países implementou programas específicos para facilitar o acesso de grupos sub-representados. Países como África do Sul, Chile, Coreia do Sul, Filipinas, Itália, Japão, Maurício e México reduziram ou eliminaram as taxas do ensino superior para grupos específicos.

Apesar de um aumento de nove vezes nas matrículas de pessoas refugiadas, que passaram de 1% em 2019 para 9% em 2025, elas ainda enfrentam grandes obstáculos para acessar o ensino superior. A principal barreira é o reconhecimento de qualificações ausentes ou impossíveis de verificar, especialmente no Sul Global.

Passaporte de qualificações da Unesco

Para enfrentar essa questão, a Unesco implementa o Passaporte de Qualificações, uma ferramenta que visa reconhecer as qualificações acadêmicas, profissionais e vocacionais de refugiados e pessoas deslocadas à força. Atualmente, o Passaporte de Qualificações da Unesco está em uso no Iraque, Quênia, Uganda, Zâmbia e Zimbábue, com planos de expansão, e já foi concedido a centenas de candidatos aprovados.

O relatório também indica que o investimento governamental no ensino superior corresponde, em média, a cerca de 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) global. A austeridade fiscal em diversos contextos intensifica a pressão sobre as instituições, reforçando a necessidade de modelos de financiamento inovadores que assegurem um ensino superior inclusivo e de qualidade.

Outro dado relevante é que, embora as tecnologias digitais e a inteligência artificial (IA) estejam transformando o ensino e a aprendizagem, apenas uma em cada cinco universidades possuía uma política formal sobre IA em 2025.

Em conclusão, a rápida expansão do número de estudantes nas últimas décadas tem tensionado os sistemas de ensino superior. Isso ressalta a importância de garantir padrões de qualidade no ensino, ao mesmo tempo em que se amplia o acesso para grupos desfavorecidos, a partir de um financiamento equitativo e sustentável.

FONTE/CRÉDITOS: Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

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