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Quarta-feira, 29 de Abril 2026

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O conto de Natal da economia

Rafael Cervone*

O conto de Natal da economia
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Há livros que ultrapassam séculos porque falam menos de personagens e mais da realidade dos seres humanos. Um Conto de Natal, escrito pelo romancista inglês Charles Dickens em 1843, é uma dessas obras que continuam soprando verdades no ouvido da civilização. Na noite de Natal, o protagonista da história, Ebenezer Scrooge, o homem sovina e solitário que se recusava a enxergar o mundo para além de suas próprias certezas, é visitado por três fantasmas – o do Passado, o do Presente e o do Futuro –, que lhe revelam, com brutal clareza, o peso de suas escolhas.

A economia brasileira, à sua maneira, vive algo parecido. Também recebe espectros, e todos eles insistem em nos mostrar os riscos dos nossos caminhos caso não mudemos de rota.

O primeiro visitante é o Fantasma do Passado. Ele arrasta correntes pesadas como o Custo Brasil. Vem carregado de impostos altos, longos ciclos de juros que desafiam qualquer lógica produtiva, uma burocracia que parece ter sido criada para desestimular a geração de riqueza, insegurança pública e jurídica, rombos fiscais persistentes, custos trabalhistas que desincentivam as contratações e um sistema de crédito há tempos restritivo. Essa alma penada retrata com clareza décadas de escolhas equivocadas, hesitações e agendas interrompidas, alertando que carecemos de um projeto de Estado e não de governos.

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O segundo visitante, o Fantasma do Presente, não é menos incômodo. Ele é impregnado da teimosia de um país que reconhece seus problemas, mas segue incapaz de os enfrentar de modo pleno. Os mesmos nós que estrangulavam o passado continuam nos apertando, agora acrescidos de novos desafios muito complexos, como a emergência climática, um cenário geopolítico global tenso e aumento da competição entre as nações. É como se estivéssemos presos em um eterno dezembro, sempre à espera de uma promessa de mudança em um ano novo que nunca chega.

E, então, recebemos o terceiro visitante, o mais enigmático, o Fantasma do Futuro. Ao contrário dos dois anteriores, ele não traz uma sentença pronta. E isso muda tudo. Não será, necessariamente, uma assombração. Poderá ser, se quisermos, um espírito luminoso, livre dos carmas históricos e materializado nas virtudes de um país mais produtivo, mais competitivo e mais justo. A prevalência do seu brilho depende apenas de nós, porque o amanhã brasileiro só será amigável se fizermos o que Scrooge fez: repensar escolhas.

Seremos capazes? Conseguiremos promover uma reforma administrativa verdadeira, que torne o Estado menos pesado e mais eficiente? Baixar juros de modo sustentável? Vencer a criminalidade que trava investimentos e rouba vidas, dignidade e recursos? Proporcionar segurança jurídica e previsibilidade às empresas, atraindo inovação e investimentos a longo prazo? Reduzir o Custo Brasil? E agregar excelência à educação pública, elevando produtividade, inclusão social e capacidade de competir num mundo que se desenha turbulento, veloz e cada vez menos tolerante com países que insistem em errar?

Em Dickens, Scrooge descobre que ainda há tempo. Entende que o futuro só é ruim quando decidimos não o transformar. Ao amanhecer do Natal, aquele homem bruto, rabugento, solitário, sovina e incapaz de empatia abre a janela, percebe algumas virtudes da vida e decide mudar.

O Brasil também pode exorcizar seus fantasmas e aprender com eles. Temos recursos naturais abundantes, um mercado interno dinâmico, capacidade empreendedora admirável, criatividade farta, setores econômicos, como a indústria, bem estruturados e uma sociedade que nunca desistiu de sonhar grande. Devemos e merecemos nos tornar a potência que sempre nos prometeram que seríamos.

Entretanto, essa conquista exige muito esforço e um propósito renovado de desenvolvimento sustentável. O futuro que desejamos implica a coragem de enxergar, a lucidez de escolher e a vontade política de agir. Precisamos enfrentar e vencer os desafios. Caso contrário, nossos fantasmas seguirão voltando, a cada dezembro, para cobrar o preço da omissão.
 
*Rafael Cervone é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

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Maricy Celebroni

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