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O segundo turno da eleição presidencial de 2026 coloca diante dos brasileiros diferentes projetos de governo. É natural que seja assim. Democracia pressupõe escolhas e visões distintas sobre a gestão pública. Porém, há algo que precisa transcender ao resultado das urnas: a conquista de um patamar mais elevado de desenvolvimento.

O próximo presidente encontrará um país que não pode perder mais tempo discutindo apenas o que nos divide. Há fatores que não são partidários ou ideológicos. São questões de Estado e dizem respeito ao presente e ao futuro de quem vive, trabalha e empreende no Brasil. Precisamos crescer mais e melhor, com ganhos concretos de produtividade, investimento, inovação, infraestrutura, competitividade, preservação ambiental, empregos e bem-estar humano. E ver o Brasil pacificado, chega de divisão que não soma.

Não há inclusão socioeconômica sustentável sem trabalho. Programas de transferência de renda são importantes para enfrentar a vulnerabilidade social e devem ser mantidos enquanto necessário, mas é a criação de empregos em grande escala que permite ampliar renda e outorgar autonomia ao nosso povo. Nesse sentido, carecemos de uma estratégia sistemática abrangendo a indústria, o comércio, os serviços, o agronegócio, a infraestrutura e a economia digital.

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Isso também significa enfrentar o que encarece a contratação formal e reduz a capacidade de crescimento e lucratividade das empresas. É crucial buscar redução dos custos trabalhistas sem renunciar à proteção social e dos direitos dos trabalhadores.

A transição energética e a luta contra o aquecimento global são outros fatores essenciais. O Brasil tem condições de transformar energias renováveis, biocombustíveis, bioeconomia, terras raras e novas tecnologias em fontes de investimento, inovação, exportações e empregos qualificados. Cumprir compromissos climáticos pode e deve ser uma oportunidade de desenvolvimento.

Para isso, é necessário que o Estado funcione melhor. A reforma administrativa, há muito tempo parada no Congresso Nacional, deve buscar eficiência, aperfeiçoamento dos serviços e melhor utilização dos recursos do erário. É indispensável, ainda, equacionar a dívida pública e manter compromisso com o equilíbrio fiscal. Não se trata de bandeira ideológica, pois a conta existe e seu custo afeta a capacidade de investimento dos governos federal, estaduais e municipais. Responsabilidade na gestão dos orçamentos é condição para viabilizar juros menores e ampliar o crédito para empresas e famílias.

Segurança jurídica é outra prioridade. Quem investe precisa de regras previsíveis, respeito aos contratos e estabilidade regulatória. Sem isso, o capital torna-se mais caro e o aporte de recursos em atividades produtivas fica mais difícil. O combate ao crime organizado também é compromisso que extrapola governos e partidos. Exige integração das forças de segurança, inteligência e capacidade de atingir o fluxo financeiro que sustenta as facções e milícias. Uma prioridade é proporcionar mais proteção e oportunidades de ensino e trabalho aos jovens de baixa renda, para que se livrem das tentativas de recrutamento das quadrilhas.

Na área tributária, temos o desafio de fazer a transição da reforma sobre o consumo com segurança e eficácia. A mudança só cumprirá sua finalidade se resultar em mais simplicidade, previsibilidade e menor litigiosidade e não provocar aumento da carga. Também é necessário assegurar isonomia de impostos entre as empresas nacionais e as estrangeiras. Não é correto conceder privilégios a quem investe e gera empregos em outros países. 

É possível divergir sobre como enfrentar cada desafio. Isso faz parte da democracia. O que não deve provocar dúvidas é a necessidade de encontrar soluções concretas. O mandato presidencial é de quatro anos, mas o Brasil terá infinitas décadas pela frente. Milhões de habitantes continuarão buscando oportunidades, a transição energética seguirá avançando, a tecnologia se desenvolvendo e a economia precisando de investimentos contínuos para que o crescimento seja vigoroso e sustentável.

Por isso, a eleição não deve terminar no dia do voto. O resultado das urnas no segundo turno definirá quem conduzirá o Governo Federal. Porém, seja quem for o vencedor, o Brasil precisará de uma estratégia de progresso com justiça social capaz de sobreviver à alternância de poder. E que provoque a união de todos.

Necessitamos de paz, com menos descontinuidade do que funciona, correção do que está errado e planejamento. Em meio às diferenças político-ideológicas, é fundamental diagnosticar os objetivos comuns à agenda mínima de desenvolvimento. São desafios muito grandes para caberem em um partido e em um mandato e importantes demais para serem adiados. Por isso, o presidente da República, governadores, parlamentares eleitos e todos os brasileiros têm a imensa responsabilidade de transformar o resultado das urnas em um projeto de País.

*Rafael Cervone é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).