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Autores censurados pela Fundação Palmares deveriam ser lidos por brasileiros

Por Álamo Chaves, presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região de Minas Gerais e Espírito Santo (CRB-6)

Autores censurados pela Fundação Palmares deveriam ser lidos por brasileiros
Arquivo Pessoal/Reprodução
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Contam que, certa vez, o livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, foi colocado na seção de botânica de uma livraria. Se o atual presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, trabalhasse na referida livraria, não haveria dúvidas de que seria ele o autor dessa confusão, devido seu profundo desconhecimento literário. Autor de declarações célebres como “o cabelo do negro é carapinha” e “[o movimento negro é a] escória maldita”, Camargo decidiu agora promover uma efetiva censura na fundação.

O relatório “Retrato do Acervo: A Doutrinação Marxista”, produzido e divulgado pela Fundação Palmares no último dia 11, revela a devassa que a atual gestão tem promovido no órgão. De acordo com o documento, o acervo da fundação conta com quase 9.600 títulos, dos quais 46% são de temática negra, enquanto 54% são de temática alheia à negra. A solução encontrada pelo presidente da instituição para resolver essa dicotomia, portanto, foi expurgar pelo menos 5.300 livros. Entre os autores excluídos, estão Marx, Engels, Lênin, Weber, Hobsbawm, Simone de Beauvoir, H. G. Wells e até Machado de Assis.

Para justificar sua atitude, Camargo afirmou no relatório que, “assim como um livro exclusivamente sobre sistemas hidráulicos será excluído simplesmente por ser um livro sobre sistemas hidráulicos, os marxistas também serão. Porque, a rigor, tanto o marxismo quanto os sistemas hidráulicos nada têm a ver com o escopo da Palmares e com a cultura negra”.

A fundação ainda justificou o descarte de livros como o “Dicionário do Folclore Brasileiro”, um clássico do historiador Câmara Cascudo, por se encontrar “gramatical e ortograficamente desatualizado”, além de apresentar “páginas soltas e exibindo um forte cheiro de mofo”. Já a obra “Papéis Avulsos”, de Machado de Assis, editado em 1938, será excluída do acervo por supostamente prestar um desserviço a quem consultá-la, uma vez que palavras como “crônica”, “anos” e “Espanha” estão grafadas na publicação machadiana como “chronica”, “annos” e “Hespanha”, respectivamente.

No entanto, a fundação ignora que existem métodos científicos desenvolvidos por bibliotecários para tratar acervos como os mencionados. Também ignora a existência de técnicas especializadas para tratar problemas como cheiro de mofo e páginas soltas, comuns em obras raras.

Camargo parece desconhecer, ainda, que considerar a memória negra como algo isolado é ignorância. Quando se trata da identidade de um povo, há de levar em conta as relações e interações sociais e as diferentes culturas que moldaram o caráter daquele povo.

O relatório da fundação ainda ressalta que 54% do acervo contém temas como “sexualização de crianças, ideologia de gênero, pornografia e erotismo, manuais de guerrilha, manuais de greve, manuais de revolução, bandidolatria, bizarrias”.

Diante de tal afirmação, é oportuno voltar às obras de Marx, Engels, Lênin, Weber, Hobsbawm, Simone de Beauvoir, H. G. Wells e Machado de Assis no intuito de conferir se alguma delas traz como premissa a pornografia, a sexualização de crianças, a ideologia de gênero, ou algumas das outras declarações em fundamento listadas por Camargo. Certamente, não as encontraremos, mas não custa procurar. Quem sabe assim, ao termos contato com esses autores, fazemos com que o Brasil deixe de ser uma sociedade marcada pela alienação geral.

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