Centenas de pais brasileiros se identificaram com o drama do casal Laís (Indira Nascimento) e Monteiro (Aílton Graça), na novela global Travessia. Eles foram pais do adolescente Theo, interpretado pelo ator Ricardo Silva, extremamente dependente e viciado em jogos on-line. A identificação é decorrente do fato de a mesma situação ocorrer em milhares de lares no país. Os responsáveis não sabem o que fazer para reverter um comportamento assim e sofrem muito por não conseguirem lidar com os “filhos do quarto”.
O personagem passava tanto tempo trancado no quarto que comprometeu o rendimento escolar. Além disso, na trama, ele priorizava a diversão e, chegava a ficar, até sem tomar banho e comer durante o dia, para passar mais tempo em frente às telas.
A verdade é que um “Filho do Quarto” nada mais é que a síndrome da gaiola, da ansiedade e do cotidiano atual, cada vez mais rápido e inseguro. A insegurança é decorrente das exigências diárias da vida moderna e da imagem deturpada de perfeição e de alegria, apresentadas pelas telas.
O personagem Theo se acostumou tanto ao cotidiano virtual, em que tudo é perfeito, a vida é só diversão e pode escolher que aparência ter, que acabou se esquecendo de viver a própria vida no mundo real, pois tinha de lidar com preocupações, decepções e com os defeitos dele e dos outros.
Uma pesquisa da Consulta Brasil entrevistou 6,3 mil participantes com idades entre 9 e 17 anos, em todas as regiões brasileiras, apontando resultados impressionantes e que devem servir de alerta para as famílias. A análise registrou que 86% das crianças e adolescentes revelaram usar a internet diariamente e 80% da faixa etária, até 12 anos, informaram acessar uma vez por dia, no mínimo. Os dados ainda revelaram que, para 51% dos entrevistados, os adolescentes se abrem mais na internet que com os pais e 46% reclamam da falta de atenção familiar e afirmaram que se tivessem mais atenção, passariam menos tempo no celular.
Um outro levantamento, encomendado pela BBC e pelo fórum Netmums, revelou que, no período pós-pandêmico, 74% das famílias estão mais preocupadas com esse assunto. A educação do filho deve ser para o mundo e, não apenas, para ficar dentro de seu quarto. Se você cria um filho e para ele, a paternidade e a maternidade for só dentro de um quarto, que tipo de criação é essa? O que falta para essa criança ou esse adolescente, se ele ou ela não tem nenhuma patologia que a leve a ter esse tipo de conduta?
Quando o filho não apresenta nenhum tipo de patologia, como ansiedade e depressão, e é capaz de interagir bem socialmente, o ato de passar o dia inteiro dentro do quarto não deve ser normalizado. Deve ser questionado sobre o que está acontecendo em relação ao processo de criação para se sentir melhor se isolando do que em uma festa familiar, por exemplo.
Os pais devem se questionar e repensar essa questão, por que quando os filhos crescem e se deparam com a realidade fora dos quartos, a frustração é tão grande que ficar dentro do quarto vira uma patologia, que se tornará a síndrome do pânico e depressão, entre muitas outras situações para não sair desse mundo imaginário.
Estar no quarto é uma sensação de proteção, significando que ao sair do quarto, essa proteção é corrompida, então, deve-se olhar o que está acontecendo para o filho se sentir frágil e com dificuldade de acesso. Tudo deve ser revisto e trabalhado.
É essencial reorganizar o sentido de família, entendendo o objetivo é a união de pessoas com uma relação madura de afetividade, transformando regras e combinados em ação de socialização, responsabilidades e benefícios, mantendo o diálogo com aquecimento, mantendo o afeto como troca, ou seja, isso é de suma importância para evitar novos filhos do quarto dentro dos lares familiares brasileiros.
*** Ângela Mathylde Soares – phd em neurociência, psicopedagoga e psicóloga
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