Muitos de nós já ouvimos a frase “a solidão da mulher negra”, mas nem todo mundo teve a oportunidade ou interesse de refletir sobre o assunto.
Quanto mais conscientes nos tornamos em relação à realidade que vivemos, quanto mais tomamos consciência de classe, raça e gênero, mais fica difícil passar por situações cotidianas sem que elas nos atravessem.
Eu iria iniciar essa reflexão compartilhando minhas experiências na escola, mas entendi que precisava voltar um pouco mais. Vou começar de casa.
Meus pais são separados desde que eu tinha 3 anos, tenho quase nenhuma memória dos dois juntos. Meu pai, um homem branco que não voltou a se casar, minha mãe uma mulher negra que teve outras pelo menos 4 experiências malsucedidas em relacionamentos na busca de amor.
Neste contexto de muitos padrastos, registro que nunca presenciei uma cena de carinho deles para com a minha mãe. Ao contrário, vítima constante de violência doméstica, é uma mulher que tem várias partes do rosto quebradas em consequência da intensidade das agressões que sofria.
Quando contei para ela que estava escrevendo este texto, ela ainda completou: ‘’é, filha... além de tudo isso, quando eu e teu pai íamos até o mercado, ele fazia questão de andar em corredores diferentes dos que eu estava para não ser visto comigo. ’’ Dói. Se pode doer em um leitor alheio a esta história, imagina como se sente a filha deste casal. Não me recordo se quer de uma cena onde qualquer parceiro da minha mãe dava a ela carinho, beijos ou abraços como se é observado nas famílias ‘’Doriana’’.
Mas vamos falar já já sobre a que fazem a mulher preta se submeter para ter acesso à validação do ‘’amor’’ branco.
Passando pela falta de demonstrações de carinho na infância, vou direto para a escola. Nós mulheres pretas, mais ou menos retintas, nunca estávamos no TOP das mais belas, nunca éramos cogitadas como alguém que deveria ser amada, quando muito, comentavam sobre nosso corpo, longe de todos os olhos e ouvidos, até fazerem com que acreditássemos que nossa única qualidade possível seria relacionada aos belos seios ou ao bumbum farto, nos reduzindo à hiperssexualização, nunca dignas de amor, ou de ser o par de alguém.
Avançando para a vida adulta experimentamos pela primeira vez, de um parceiro ou parceira, a experiência do ‘’vou te assumir’’. Quero aqui, caro leitor, cara leitora, que prestem muita atenção nesta reflexão. A palavra ‘’assumir’’ neste caso traz consigo escondida o fato de que alguém está fazendo algo errado (estar com uma negra), e por isso deveria assumir. Apresentar para pais e amigos fica longe, para a mulher preta só resta o ‘’assumir’’ que está com ela. Num país onde o Presidente eleito se sente no direito de declarar que seus filhos jamais namorariam um negro pois eles têm educação, o que esperar da sociedade? Imaginem ainda o reflexo que essa afirmação tem na vida de todas nós.
Quanto mais essas reflexões permeiam nossos dias, mais difícil fica se relacionar afetivamente. Nós começamos a refletir sobre aceitar o pouco, as migalhas. O não assumir, o não pegar na mão, o não olhar nos olhos, aliados ao só bater na bunda, passando pela nossa objetificação. Os comentários sobre nosso cabelo, nossa pele, nosso jeito, sempre machucam. Nos reduzem até que caibamos num padrão europeu de beleza e de comportamento, e tudo fora daquilo se torna ‘’raivoso’’, ‘’exagerado’’, ‘’exôtico’’.
Muitas vezes, a mulher preta cai no lugar da brincadeira, do nada sério. ‘’Fiquei com ela na festa porque eu tava loco (a) ’’, ou, ‘’a gente fica quando a gente bebe’’, e mais uma vez é tirado da mulher preta a possibilidade de amor e de afeto.
Parece que sempre estão buscando uma justificativa para estarem conosco, ou se não, somos usadas como passaporte de não racismo. ‘’eu não sou racista, eu namoro uma negra. ’’ Tudo isso piora quando esta mulher preta é uma mulher trans.
A tragédia é tão grande que ainda nos fazem ter o sentimento de validação quando estamos com um companheiro ou companheira branca. É como se fosse um passaporte social. Nos submetemos aos mais diversos tipos de violência familiar e social, sem qualquer discussão do contexto racista que vivemos.
Anula-se a nossa própria história, a nossa própria ancestralidade. Abre-se mão da nossa realidade, da nossa africanidade até anularmos a nossa própria existência. Tudo para nós mulheres pretas vêm envolto em muita dor e sofrimento, sempre temos que ser resilientes, até para termos acesso ao amor.
Aqui cabe também a reflexão em torno do porquê tudo que é direcionado a nós vem com ausência de afeto. Nas relações de trabalho, não somos alvo da simpatia e educação de quase ninguém. No parto, nos é negado qualquer procedimento que reduza nossa dor. A solidão da mulher preta vai, para além das relações afetivo-amorosas, para as relações sociais e familiares.
A qualquer mulher preta consciente desta realidade, que se coloca na posição de não precisar que ninguém a assuma, de não aceitar migalhas, o pouco ou ser a brincadeira de alguém, resta o lugar de solidão, só.
Nessa atmosfera, racista, machista, patriarcal e de não amor à mulher preta, para existir e resistir ainda enxergando na vida beleza, é necessário transformar os laços para manter a beleza deles.
Deixo aqui minhas últimas perguntas aos meus leitores. Será que cabe a nós mulheres pretas aprendermos apenas através da dor? Não podemos aprender só com o amor e pronto? E em referência ao último álbum do cantor Baco, quantas vezes você já foi amada?