Tão logo amanheceu na pequena Nova Europa, lá se foi o menino Roberto pedalando sua bicicleta rumo a Ibitinga. Era preciso estudar! A viagem pela estrada de terra era longa e cansativa. Era melhor permanecer no lugar e lá se foi o menino Roberto, buscar emprego em uma pequena bicicletaria para pagar o pão e a pensão.

Roberto Alves Cintrão
Depois do colegial não havia mais Ibitinga. Somente a grande São Paulo, sobre os trilhos dos bondes. Ela se foi o jovem Roberto, trabalhar vendendo fogão a querosene para pagar o curso Normal, a Pensão e o Pão. Por vezes o dinheiro acabava antes do mês e era preciso trocar o passe do bonde por um pão molhado no molho de macarrão. E lá se ia o jovem Roberto, sem bonde, para a pensão. Um dia, cansado, sem dinheiro, sem bonde e sem pão, chegou em casa, pensando que era hora de desistir. Mas encontrou no quarto seu pai, vindo da pequena Nova Europa, preparando um ensopado que ele comeu com se fosse sua última refeição. E satisfeito dormiu e no dia seguinte acordou e continuou. Era preciso estudar.
Se formou no Normal e, sem outra perspectiva, voltou para a pequena Nova Europa. Por influência política do Prefeito (como era ao seu tempo), conseguiu emprego como Professor. Mas em Nova Europa não havia colégio para jovens como ele, e era preciso estudar. Conseguiu apoio político e implantou na pequena Nova Europa o primeiro colégio e foi seu primeiro Diretor. Juntou dinheiro suficiente, passou no vestibular para cursar a renomada faculdade de Geografia da Universidade de São Paulo e voltou para cidade Grande. Era preciso estudar.
No final terceiro ano de faculdade passou no concurso público para Professor. Se formou lecionando nos colégios da Capital. Depois escolheu cadeira na cidade de Porto Ferreira.
Casou-se com a Professora Ângela Maria Pezza e conseguiu transferência para Araraquara. E lá se tornou Diretor do Instituto de Educação Bento de Abreu (IEBA). Implantou uma gestão democrática, abrindo os portões da escola. Reformou o telhado do prédio que se encontrava em péssimo estado de conservação, após intensas discussões com a Delegacia Regional, de Ensino. Para isso, precisou espalhar os alunos por salas de outras escolas, igrejas e instituições espalhadas pela cidade. Depois assumiu o compromisso de construir um ginásio de esportes coberto para as práticas esportivas, que ganhou o carinhoso nome de Gigantinho. Pediu ajuda aos alunos, que passaram a levar tijolos e outros materiais, que foram suficientes para fazer os alicerces do Gigantinho. Sensibilizado com o esforço, o Secretário de Estado encampou a obra e a finalizou.
Em 1972 assumiu a direção do Colégio da Vila Xavier “Francisco Pedro Monteiro da Silva. Cuidou de montar as oficinas para o ensino técnico aproveitando os funcionários da antiga FEPASA e preparar a banda marcial do CHICÃO para concorrer nos concursos com a banda do IEBA, sua principal rival.
Depois, era preciso alfabetizar os adultos e, com o apoio do Prefeito, implantou na cidade o Mobral. Era preciso estudar. As jovens alunas do IEEBA trabalhavam por longo período sem remuneração, até que a iniciativa se institucionalizou.
Sobrevieram os cinco filhos e, no mesmo ritmo que as despesas cresciam, o salário de Professor foi lentamente se deteriorando. Levantou empréstimo e construiu a primeira casa para vender e depois vieram mais dez outras. Assim formou os filhos, sem deixar nada faltar. Mas a aposentadoria se avizinhava e era preciso estudar. Curso Direito e se formou Advogado. Constituiu escritório e, com base em seus conhecimentos de Geografia Urbana, criou sua empresa de assessoria.
Já com 80 anos, concluiu que era preciso se aposentar. Diminuiu o ritmo, mas como todos os homens da geração de ferro cuja vida foi trabalhar, não conseguiu suportar o vazio e foi deixando a vida o levar.
Hoje meu pai deixa este mundo ao 89 anos. Ficamos sem ele, mas sua presença no mundo há de ficar, como diz o poeta Manuel Bandeira, “não como forma imperfeita neste mundo de aparências”, mas com suas obras e sonhos, suspensos no ar.
Luciano Pezza Cintrão
Eng. Agrônomo, Advogado e Empresário