A poesia é uma das manifestações literárias mundiais mais populares, atraindo a atenção de pessoas de todas as gerações. Contudo, o que poucos percebem é que as palavras têm muito mais poder do que demonstram, sendo usadas ainda como um movimento de resistência.
A resistência é um ato político, cujo vocábulo indica a capacidade do ser humano de suportar, resistir ou se opor a uma forma, ação ou mudança, sendo empregada em aspectos políticos, quando campanhas governamentais, por exemplo, são incapazes de incluir toda a população, acabando por excluir um grupo, por vezes, mais necessitado de mudanças e atenção que o beneficiado.
As movimentações desse tipo geram revoltas, porém, a questão é como dar voz àqueles que, por décadas, ou até mesmo, séculos, seguem oprimidos ou silenciados? É neste momento que a poesia entra em cena.
Para a poeta, filósofa e advogada, Beth Guedes, que também é PCD, o poema é considerado um ato de resistência, pois usa a linguagem para denunciar a tirania e os atos de autoritarismo, sendo esse, um gênero literário livre de preconceitos, quer seja de raça, gênero, classe social, deficiências ou idade. Afinal, todos têm liberdade para expor seus sentimentos mais profundos através das palavras.
Um exemplo está no poema “Diversidade”, de autoria da autora e que está publicado no livro “Caligrafia do Entardecer”, publicado em 2022. Segue parte dos versos com sua resistência:
“...Há tantos mutilados
que rastejam por entre minas
corpos esqueléticos de fome
lágrimas teimosas na face
O barulho das bombas
ensurdece as consciências
e há esse medo no olhar
dor das palavras confusas
Que cessem os julgamentos
nos tribunais do preconceito
pessoas sentenciadas no ódio
no estranhamento ao diferente…
… Nessa intolerância o poema
nasce morto, mas vai ressuscitar
quando sensíveis ao clamor alheio
aceitarmos os desiguais como iguais
Ainda bem que a combinação de palavras e técnicas, como a métrica, rima, figuras de linguagem e as alterações de ritmo ao longo dos versos provocam uma série de sensações nos leitores e um grande impacto emocional.
Além disso, essa característica e a flexibilidade na escrita também são conhecidas pela capacidade do autor em driblar a censura. Beth recorda que a habilidade se tornou muito popular, durante o período da ditadura militar, de 1964 a 1985, quando os artistas nacionais se viram perseguidos por letras musicais que batiam de frente com o atual modelo político da época. Assim, a alternativa foi se adaptar à nova realidade.
Outra solução foi usar metáforas para contornar as restrições dos órgãos regulamentadores, compondo canções - um tipo de manifestação poética - que até hoje são populares entre os brasileiros, como “Cálice” - que possui sonoridade parecida com a palavra “Cale-se”, e “Para não dizer que não falei das flores”, que faz uso de uma flor para disseminar ideia de pacifismo, enquanto os versos convocavam a população a ir às ruas e lutar contra a violência do período.
Vale recordar que a poesia está sempre diretamente ligada à inclusão por reconhecer a dignidade e valor de cada indivíduo como é, enriquecendo, justamente, a construção coletiva social, que só ocorre quando todos possuem voz e podem dialogar entre si, sem qualquer tipo de intolerância.
Para a poeta escrita e a arte, de forma geral, são e devem continuar sendo espaços livres e acolhedores, pronto para abraçar diferentes corpos, vivências, ritmos, formas de expressão e realidades sociais, finalmente dando oportunidade aos mais marginalizados.
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