A alimentação inadequada está entre as diversas condições que afetam a mente e comprometem comportamentos e interesses das pessoas sem uma nutrição adequada. Muito se fala em inclusão escolar, mas pouco se discute sobre a inclusão alimentar, processo garantido pela prefeitura de Belo Horizonte, a partir deste mês. Uma nova regra para garantir o direito de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), com altas habilidades, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e outras condições atípicas, permite levar os próprios lanches de casa para a escola. A medida engloba as instituições públicas e particulares. Os pais e responsáveis devem apresentar um laudo médico e relatório nutricional, explicando a necessidade de uma alimentação diferenciada e questões sensoriais que influenciam a recusa alimentar.
A proposta é garantir uma alimentação adaptada a necessidades especiais, uma vez que, muitos casos são acompanhados por médicos e nutricionistas para manter o controle do tratamento e desenvolvimento. Uma nutrição correta ajuda a lidar com dificuldades, como seletividade ou compulsão alimentar e, prevenir problemas como obesidade e desconfortos intestinais.
Conforme explica a PHD em neurociências, psicanalista e psicopedagoga, Ângela Mathylde Soares, apesar de recorrente e simples, para muitas pessoas, o momento do lanche representa um desafio sensorial, emocional e fisiológico, obrigando pais a descobrirem a origem dos desconfortos para ajustá-los. “O TEA é a condição mais conhecida por essa complexidade. O transtorno do neurodesenvolvimento causa um desenvolvimento atípico, afetando a capacidade de comunicação e interação, provocando comportamentos repetitivos e interesses restritos”.
Outras características são a hipersensibilidade ou hipossensibilidade a estímulos sensoriais e as alterações no comportamento alimentar, gerando seletividade, intolerâncias ou alergias. Alguns estudos apontam que 46% a 89% das crianças com TEA apresentam algum grau de seletividade alimentar.
Na maioria das vezes, a seletividade acontece, exatamente, em razão dos fatores sensoriais. Algumas crianças apresentam sensibilidade tátil aumentada, tornando a textura dos alimentos uma das maiores barreiras, já que qualquer alimento de consistência inesperada pode causar desconforto, repulsa e, até mesmo, ânsia.
Ângela recorda que a preferência infantil está nos alimentos com textura previsível, macia e homogênea, como purês, bolos caseiros úmidos, pães e queijos leves, frutas bem maduras cortadas em pequenos pedaços e alimentos com pouca crocância. Por outro lado, qualquer comida muito fibrosa, grudenta ou gelatinosa, costuma ser considerada incômoda.
A educação alimentar também é fundamental, devido ao risco da seletividade originar deficiências nutricionais. “As comidas ultra processadas, com corantes, conservantes e aromatizantes artificiais podem irritar o sistema nervoso, enquanto frutas vermelhas, castanhas, sementes e vegetais verdes escuros contribuem para a saúde mental e equilíbrio emocional”, afirma a especialista.
A medida da prefeitura de Belo Horizonte é um grande avanço para maior inclusão em ambientes escolares, sobretudo das crianças com TEA, uma vez que a regra foi assinada em abril, mês de campanhas de conscientização sobre o espectro para combater o preconceito e garantir maior qualidade de vida e bem-estar.