Um estudo conduzido pela Universidade de São Paulo (USP) revelou que álcool ou drogas estavam presentes no organismo de 53% das vítimas de mortes violentas em quatro capitais brasileiras. A análise toxicológica, realizada logo após os óbitos, abrangeu 3.577 casos em Belém, Recife, Vitória e Curitiba, representando as regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul do país, respectivamente. Os achados foram publicados na revista científica Toxics.
O objetivo principal da pesquisa foi gerar dados padronizados e comparáveis sobre a influência de substâncias psicoativas em mortes por causas externas no Brasil. Segundo Henrique Silva Bombana, biomédico toxicologista e pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, o estudo visa aprofundar o entendimento sobre o papel dessas substâncias.
Perfil das vítimas e substâncias psicoativas
O coronel Samir Gardini, especialista em segurança pública e policial militar reformado, destacou a relevância da pesquisa ao apresentar dados distintos dos usualmente divulgados, como os do Atlas da Violência. Ele ressaltou que o estudo foca no perfil das vítimas e sugere que o cenário socioeconômico, a infraestrutura urbana e as políticas públicas de saúde mental e combate ao tráfico são fatores cruciais a serem considerados.
A pesquisa indicou que, dos 53% de vítimas com substâncias no organismo, 90% eram homens, e a maioria possuía mais de 30 anos. Este dado contrasta com o Atlas da Violência, que aponta jovens como a maioria das vítimas de homicídios. Gardini considera essa discrepância um ponto importante para aprofundamento na análise da violência no Brasil.
Em relação às causas das mortes violentas, 67% dos casos com presença de substâncias foram homicídios, majoritariamente com uso de arma de fogo. O especialista questiona a eficácia do controle de armas nesse contexto, argumentando que o foco deveria ser no combate às armas clandestinas que entram no país ilegalmente.
Outros 15% das mortes violentas foram atribuídas a acidentes de trânsito, onde o uso de álcool foi o principal fator. Gardini defende a necessidade de punições mais rigorosas para casos de embriaguez ao volante.
A pesquisa também identificou a presença de cocaína em mais de 30% dos casos e álcool em 28%. O especialista alerta para a importância de combater facções criminosas e investir em programas de recuperação para usuários de drogas, abordando a questão sob a ótica da saúde pública.
Soluções e prevenção
Gardini enfatiza a necessidade de o Brasil adotar uma abordagem mais técnica e baseada em inteligência policial no combate à violência, com menor intervenção política e ideológica. Ele defende um investimento robusto na educação de jovens, desde os primeiros anos escolares, como medida preventiva contra o envolvimento com drogas.
O coronel também aponta a importância de oferecer espaços e eventos culturais para a juventude, como forma de promover o desenvolvimento integral e reduzir a vulnerabilidade ao crime e ao uso de substâncias. Ele conclui que um trabalho mais profundo e corajoso nessas áreas é essencial.
Análise detalhada das substâncias e tipos de morte
A análise detalhada dos 53% de vítimas com substâncias psicoativas revelou que a cocaína foi a mais detectada (30%), seguida pelo álcool (28%), benzodiazepínicos (7%) e cannabis (2%). Bombana explicou que a cocaína teve predominância em homicídios, enquanto o álcool foi mais comum em mortes no trânsito e benzodiazepínicos em suicídios.
A alta prevalência de álcool em mortes no trânsito é um problema persistente no Brasil, discutido há décadas sem solução definitiva. Apesar da legislação robusta, o pesquisador sugere que um controle mais rigoroso na comercialização do álcool, similar a práticas de outros países, poderia ser eficaz.
A pesquisa, por ser transversal, não estabelece relação de causa e efeito, mas permite identificar associações e prevalências. Por exemplo, a cocaína foi mais associada a homicídios e o álcool a acidentes de trânsito. Bombana ressalta que, embora não se possa provar causalidade direta, os dados indicam fortes sinais de risco.
Em relação aos homicídios, o estudo associou 85% dos casos a ferimentos por arma de fogo. Bombana relaciona esse padrão à flexibilização das regras de compra e porte de armas pelo governo federal na época, o que teria ampliado o acesso a armamentos e munições.
No caso dos suicídios, a detecção de benzodiazepínicos levanta preocupações sobre o uso medicamentoso, automedicação e vulnerabilidade. Bombana sugere que essas substâncias podem atuar como gatilhos para a passagem da ideação suicida para o ato consumado.
De forma geral, o consumo de substâncias pode expor indivíduos a ambientes mais perigosos ou a comportamentos de maior risco, contribuindo para a ocorrência de mortes violentas em suas diversas modalidades.
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