Quem apostou, ganhou! A Covid.19 é tema do processo eleitoral. Está na propaganda eleitoral. Esteve entre os presidenciáveis, no debate ocorrido no último domingo, dia 28 de agosto. Não dá para evitar. Afinal, ainda lamentamos a morte de mais de 680 mil homens, mulheres e crianças. Impossível esquecer as mais de 34.000.000 pessoas vítimas que tiveram suas vidas colocadas em risco. E ela persiste em nosso meio.
Muito do que está sendo exposto obriga recordar a quantidade de vezes em que o sistema de saúde esteve à beira do colapso. Não nos deixa esquecer também dos dias em que, para evitar a profilaxia do vírus, fomos obrigados a permanecer em casa, evitando os contatos sociais. Para muitos, no entanto, é provável que os debates sirvam como um novo alerta. Um momento em que consideremos cuidadosamente os perfis de candidatos. Um instante que instaure a certeza de que jamais viveremos outra vez a ausência do governo no enfrentamento de uma crise.
De fato, neste tema, em específico, o que está em jogo é um julgamento político do papel desempenhado pelo atual presidente no enfrentamento da epidemia. Difícil esquecer que Jair Bolsonaro acumulou, nestes dois anos e meio que nos separa do início da proliferação da Covid.19 no país, ações e omissões que não podem ser repetidas em hipótese alguma. Não foram apenas afirmações estapafúrdias como chamar de “gripinha” uma das mais letais enfermidades de nossa história global. Ele defendeu, divulgou e estimulou o uso de remédios comprovadamente ineficazes no enfrentamento do vírus. Debochou dos especialistas, dos repórteres e das próprias vítimas. Criou situações de violência ao tripudiar com expressões como “não sou coveiro”, “sou Messias, mas não faço milagres”, “o Brasil precisa deixar de ser um país maricas”... Além de criticar as vacinas disponíveis, retardou ao limite do crime sua aquisição, dificultando seu combate.
Em um cenário como esse, o próximo presidente terá que enfrentar o desafio deixado pelas sequelas provenientes de ações e omissões devastadoras. Incluem tarefas para as quais o atual presidente não se mostra preparado. Terá a seu favor o fato de já dispormos de relatórios técnicos, pesquisas e artigos com intencionalidade científica em esferas tão amplas como a econômica e a saúde pública. Quem quer que seja, no entanto, a nova (esperamos que seja) liderança do país precisará empreender um diagnóstico que ultrapassa as fronteiras dos indicadores sociais e econômico utilizados pelo senso comum do economista, do cientista político, do sociólogo ou do meio ambientalista. A crise sanitária e a vazão do que há de mais tenebroso no imaginário social manipulado por lideranças políticas e religiosas, potencializada pelos efeitos de reverberação das redes sociais, impõem uma abertura para temas e questões que, geralmente, não são contemplados pelas esferas da política. O debate entre os presidenciáveis evidenciou isso de forma trágica. A questão das mulheres só surgiu porque Jair Bolsonaro não consegue conter sua misoginia. Ainda assim, passou longe de problemas seríssimos que atingem, por exemplo, a mulheres negras. A questão racial, a questão indígena, as questões religiosas, a questão meio ambiental, todas, estiveram ausentes do debate. Da mesma maneira, não vimos nada que sinalizasse uma preocupação dos atores políticos com as situações psicossociais que mexem de forma incisiva com homens, mulheres e crianças.
Já são muitas as contribuições que colaborariam no estabelecimento de políticas públicas que contemplassem esse universo de problemas que atingem as relações sociais e políticas em suas formas mais abrangentes e nos micros espaços das esferas da realidade cotidiana. No caso de Araraquara, a iniciativa das psicanalistas Tatiana Machado e Ana Paula Sabocinski, ao organizarem a revista Janela para a pandemia, contribui afirmativamente para o desvelamento de aspectos significativos dos efeitos do racismo, da misoginia, do negacionismo, das fake news, da intolerância.
É sintomático que, na publicação, o estranhamento, a encruzilhada entre a verdade e a mentira, o luto por experiências não vividas, a insegurança sobre o futuro, o absurdo, o não lugar do negro, o cotidiano sejam temas recorrentes. Na série de encontros que proporcionaram a organização da revista, procurava-se aguçar os sentidos para um processo de escuta. Algo que permitisse, nas palavras das organizadoras, “abrir espaços para de circulação da palavra, troca de ideias, percepções e afetos mobilizados pela crise sanitária e política que vivíamos”. E, acrescentaríamos nós: persistimos em viver.
Uma aproximação ao mesmo tempo singela e significativa, Janela para a pandemia é exemplo notável de como a psicanálise, a poesia, o teatro e muitas outras linguagens pouco ou nada exploradas pela política podem subsidiar reflexões e projetos que mudem o país de uma forma que possamos chamar de radical.
[1] Cientista Social. Doutor em Ciências (DGH/FFLCH/USP).