Vinte anos depois dos brutais Crimes de Maio de 2006, que assolaram o estado de São Paulo, Débora Maria da Silva, uma das fundadoras do movimento Mães de Maio, continua sua incansável luta por justiça. Seu filho primogênito, Edson Rogério Silva dos Santos, então com 29 anos, foi assassinado na Baixada Santista em 15 de maio daquele ano, vítima da onda de violência do Estado que resultou na morte de centenas de pessoas, em sua maioria jovens negros da periferia.
Débora recorda que, em 14 de maio de 2006, ela e a família se reuniram na Baixada Santista para festejar o Dia das Mães e seu próprio aniversário de 48 anos, celebrado dias antes. A alegria, contudo, desmoronou no dia seguinte.
Edson Rogério havia passado por uma cirurgia de siso em 10 de maio. No domingo, após a comemoração com bolo e churrasco, ele se despediu da mãe. "Ele me deu um beijo e foi embora. Depois eu só vi ele dentro do caixão", relata Débora, marcando o último adeus.
A execução de Edson Rogério
O assassinato de Edson Rogério ocorreu na segunda-feira seguinte ao Dia das Mães. Ele havia parado para abastecer sua moto em um posto de gasolina quando foi abordado por viaturas da Polícia Militar de São Paulo.
Um rapaz que tentava socorrê-lo, após a moto ficar sem gasolina, testemunhou a abordagem. "Quando eu cheguei no posto, tinha duas viaturas abordando ele e eu fiquei de longe esperando a abordagem", narrou à Débora durante o velório.
Segundo o relato, os policiais saíram do posto após a abordagem, subiram o morro e aguardaram Edson. "Mataram o meu filho encostado num muro e ele caiu sobre umas pedras, umas pedras de contenção", descreve a mãe com dor.
Edson Rogério foi atingido por cinco tiros – um em cada pulmão, um no coração e dois nos glúteos – resultando em morte instantânea. Débora expressa a profundidade de sua perda: "Esses cinco tiros que eles deram no meu filho eu senti todos. Mas do coração eu senti mais, sinto até hoje, ele dói. Foi o fatal."
Duas décadas se passaram, e o aniversário de Débora, novamente coincidente com o Dia das Mães, é uma data que ela não consegue mais celebrar. A dor da perda ainda é latente e impede qualquer comemoração.
"Não tem mais o que comemorar. Isso o Estado levou de mim perversamente", afirma Débora. "Eu não consigo comemorar o Dia das Mães. Eu não perdi só o Rogério. Eu perdi minha família", desabafa, evidenciando o impacto devastador da tragédia.
Memória e a luta das Mães de Maio
Este ano, Débora revive intensamente os acontecimentos de duas décadas atrás. Ao organizar fotos do filho para um acervo na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e conceder entrevistas, a dor retorna com força.
"Estou muito deprimida porque este ano completam-se 20 anos e pode prescrever o crime do meu filho", desabafa. A proximidade do Dia das Mães e de seu aniversário adiciona uma carga emocional, exigindo dela um esforço para manter a saúde mental.
Logo após a perda de Edson, Débora foi uma das fundadoras do movimento Mães de Maio. Essa rede de mães, familiares e amigos de vítimas da violência do Estado tornou-se um pilar fundamental na busca por justiça, memória e no combate à violência estatal.
"Maio de 2006 é uma história que nós contamos como mães porque nossos filhos morreram como suspeitos. Jamais se merece uma dor [como esta]", enfatiza Débora. Ela destaca que o movimento transcende barreiras, acolhendo até mães de policiais, mostrando que "a nossa dor não se mede".
Apesar dos anos, a justiça para os Crimes de Maio ainda não se concretizou. Recentemente, as Mães de Maio, em parceria com a organização Conectas Direitos Humanos, enviaram um apelo urgente à Organização das Nações Unidas (ONU).
O documento denuncia a omissão do Estado brasileiro, afirmando que "nenhuma dessas execuções foi devidamente esclarecida, nenhum agente do Estado foi responsabilizado e tampouco as famílias das vítimas receberam reparação adequada."
A impunidade como violência continuada
Débora categoriza a morte de Edson Rogério como um ato de violência do Estado, resultante não apenas da execução, mas também da omissão. "Não foram os faccionados que mataram nossos filhos. Foi o crime organizado, que é o terrorismo do Estado", afirma.
Ela argumenta que os jovens foram vítimas de uma retaliação, "pagaram por uma guerra que não era deles". A impunidade, segundo ela, é uma segunda morte para as mães: "quem nos mata, para além da morte dos nossos filhos, é a impunidade".
Para Débora e inúmeras outras mães vítimas de violências policiais, a memória dessas mortes deve ser preservada, e a impunidade combatida para evitar que tais tragédias se repitam.
"A gente não pode naturalizar essas mortes – e principalmente de morte cometida pela polícia", reforça. Débora vê o massacre de maio como um evento continuado, com o mesmo modus operandi se repetindo.
Ela destaca a importância de humanizar as vítimas: "Nossos filhos morreram como suspeitos e nós mostramos que nossos filhos têm nome, sobrenome e residência fixa".
Mesmo com a dor, Débora se tornou um apoio para outras mães, encorajando-as a denunciar a violência policial e a afirmar que "o filho dela importa mesmo depois de morto."
Duas décadas após o massacre, as Mães de Maio persistem em sua jornada por um Brasil que valorize a memória, a justiça e seja menos violento.
"Nós queremos continuar vivas para poder parir um novo Brasil ou uma nova sociedade, porque nós parimos seres humanos. Nós não parimos suspeito. O suspeito quem nos rotula é o crime organizado, que é esse Estado muito aparelhado. E isso vem desde o tempo da ditadura", declara Débora.
A história de Débora e outras mães impactadas pelos Crimes de Maio será destaque no programa Caminhos da Reportagem. O episódio, intitulado "Crimes de Maio, 20 anos sem Respostas", será exibido nesta segunda-feira (11), às 23h, na TV Brasil.
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se