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Sexta-feira, 31 de Julho 2026
Notícias/Saúde

A infância está cansada

O cérebro infantil não se desenvolve sob estimulação contínua

A infância está cansada
Ângela Mathylde
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A infância boceja de exaustão. As crianças parecem cada vez mais cansadas, irritadas, ansiosas, com dificuldades de concentração, alterações no sono e um consequente sofrimento emocional precoce, justamente por hábitos e estímulos que estas são expostas.

A pergunta que precisa ser feita não é “o que está acontecendo com as crianças?”, mas, o que se está fazendo com a infância. Vive-se uma cultura que confunde amor com excesso, seja de telas, de atividades extracurriculares, de compromissos, de estímulos visuais e sonoros. A agenda infantil, muitas vezes, se assemelha à de um executivo adulto — sem espaço para o ócio, para o silêncio e para a elaboração emocional. 

Do ponto de vista neurocientífico, o cérebro infantil não se desenvolve sob estimulação contínua. Ele amadurece na alternância entre estímulo e pausa. É durante o descanso, o sono e o brincar livre que ocorrem processos fundamentais como consolidação da memória, regulação emocional e organização das funções executivas.

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Quando esse ritmo é desrespeitado, o corpo fala, e estas crianças apresentam sinais considerados inadequados pelos adultos. Um sistema nervoso sobrecarregado vive em constante estado de alerta, resultando um aumento significativo de quadros de sofrimento psíquico silencioso. 

Outro aspecto pouco discutido é o impacto das telas. Não se trata de demonizá-las, e sim, de reconhecer que seu uso exagerado e precoce interfere nos ciclos de sono,a tenção e autorregulação emocional. O cérebro infantil não foi projetado para lidar com estímulos rápidos, contínuos e altamente recompensadores sem consequências. 

Além disso, há uma infância que não descansa nem emocionalmente. As crianças vivem sob expectativas elevadas, comparações constantes e cobranças sutis por desempenho escolar, social e comportamental. A mensagem implícita é clara: é preciso render. Mesmo antes de compreender o que isso significa. 

A infância cansada é, em diversos casos, reflexo de adultos igualmente exaustos, capturados por uma lógica de produtividade que atravessa a família, a escola e as relações. Quando o adulto não para, a criança também não pode parar. 

Cuidar da infância requer coragem para reduzir e proteger o ritmo biológico e emocional da criança. O desenvolvimento saudável não se mede pela quantidade de atividades, mas pela qualidade das experiências.

Antes de patologizar a criança, é preciso revisar o ambiente. Antes de buscar diagnósticos apressados, é preciso observar a rotina. Antes de perguntar “o que essa criança tem?”, talvez seja mais honesto perguntar do que ela está sendo privada. 

A infância não está difícil. Ela está cansada e o cansaço infantil é um alerta que não pode ser ignorado.                                                                                                                               

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