É lamentável constatar que nós, brasileiros, estamos incluídos entre os 3,4 bilhões de pessoas que vivem em nações nas quais o dinheiro destinado ao pagamento dos juros da dívida pública supera o montante referente à saúde e à educação. Esses países são apontados no Relatório 2026 sobre Financiamento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que acaba de ser publicado pela ONU.
Visando dimensionar o impacto negativo dessa distorção para a nossa economia e a nossa população, faço aqui uma rápida análise de alguns números oficiais do Brasil, que ultrapassou a marca de um trilhão de reais em juros nominais, para o serviço da dívida, acumulados em 12 meses até fevereiro de 2026, o equivalente a cerca de 8% do PIB. Trata-se de um dos maiores pesos relativos do mundo. A perversa equação é impulsionada pela Selic persistentemente elevada, que se manteve num patamar exagerado (14,50% ao ano) na reunião do Copom realizada na última semana de abril. Isso, sem falar do spread igualmente alto.
Em contraste, o orçamento federal da saúde para 2026 é de R$ 271,3 bilhões e o da educação e cultura, R$ 233,4 bilhões, perfazendo R$ 504,7 bilhões. A comparação é absurda e incômoda, pois pagamos duas vezes mais para remunerar credores com juros imorais do que o total de tudo o que despendemos para cuidar da vida humana e formar as novas gerações. O governo, como qualquer um de nós, não pode gastar mais do que ganha.
Não se trata de uma jabuticaba apenas brasileira, embora em nosso país o problema assuma proporções agudas. O novo relatório da ONU revela uma deterioração sistêmica nas condições de financiamento global dos ODS. Numerosas metas não estão sendo cumpridas e, o que é mais grave, há retrocessos. O que se vê é uma mistura tóxica de dívidas crescentes e insustentáveis, queda na ajuda externa e um ambiente geopolítico cada vez mais fragmentado.
O diagnóstico é contundente. Em 2024, o serviço da dívida nos países em desenvolvimento atingiu o maior patamar em duas décadas. Na prática, isso significa que recursos escassos, que deveriam financiar hospitais, escolas e infraestrutura verde, estão sendo drenados para o ralo voraz de uma espécie de agiotagem oficial. É uma inversão de prioridades imposta pela soma de políticas fiscais desequilibradas com estratégias monetárias focadas apenas nos juros elevados como fator de controle inflacionário.
Como se não bastasse, o apoio oficial aos ODS caiu 6% em 2024, para US$ 214,6 bilhões, e deve continuar recuando. Nos países mais pobres, os cortes podem chegar a um quarto do total. O investimento estrangeiro direto também encolheu pelo segundo ano consecutivo. Faltam cada vez mais verbas, na proporção inversa do dinheiro aplicado nos serviços das dívidas.
Muito provavelmente, o próximo relatório, a ser divulgado em 2027, com base em dados de 2025 e alguns de 2026, deverá apontar o agravamento desse quadro, que já é ruim, considerando o cenário de guerras e tensões geopolíticas crescentes. Majoração de taxas alfandegárias e impostos de importação, cadeias produtivas fracionadas, conflitos bélicos e disputas comerciais acirradas têm elevado custos e reduzido oportunidades.
O pano de fundo desse cenário é a exaustão de um modelo. A globalização, como concebida a partir dos anos de 1990, dá sinais cada vez mais claros de esgotamento. O multilateralismo enfraquece, a cooperação diminui e não são cumpridos acordos recentes, como o firmado na Cúpula de Sevilha, em junho de 2025, para reestruturar a arquitetura financeira mundial, aliviar dívidas de países vulneráveis e subvencionar o progresso sustentável e o combate à pobreza. Falta coordenação e sobra desconfiança.
Nesse contexto, os ODS, cujo prazo expira em 2030, parecem cada vez mais distantes. É difícil imaginar o cumprimento de metas tão abrangentes, como erradicação da pobreza, educação de qualidade, saúde universal, transição energética e sustentabilidade socioambiental, quando numerosas economias são afetadas gravemente pela dívida pública e juros elevados e recebem cada vez menos aportes internacionais.
O Brasil, ao carregar uma das mais corrosivas mesclas de descompasso fiscal e juros extorsivos, é uma triste síntese desse impasse contemporâneo. Por isso, seguimos cobrando a redução da Selic, que permanece exagerada, e a realização da reforma administrativa, pois precisamos de um Estado que gaste menos e entregue mais e melhores serviços à sociedade. Não podemos, como se não houvesse amanhã, continuar gastando mais com a dívida pública do que com a saúde, a educação, a segurança e as políticas voltadas à inclusão e ao bem-estar social.
*Rafael Cervone é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
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