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* Thaís Alessandra - escritora em lançamento do livro “Aiyra e o Rio II: O Feminino Veste Cocar”, uma série literária afro-indígena sobre a saga de Aiyra, viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB): "edital 04/2026 - Execução Cultural (categoria: produção literária) /ID 24170", contando com o apoio da Cultura e Turismo e realização do Ministério da Cultura
A análise da liderança feminina no contexto brasileiro requer uma abordagem interseccional para desconstruir a hegemonia do sujeito genérico "mulher" e evidenciar as profundas assimetrias sócio-históricas delimitadoras desse exercício de poder. Enquanto a pauta hegemônica associada à mulher branca se articula, em grande medida, em torno da superação do "teto de vidro" e da busca por equidade em instâncias corporativas e institucionais, a ação política da mulher indígena se estrutura sob uma ontologia essencialmente comunitária e territorial. A liderança delas não se vincula à ascensão socioeconômica individual ou à representatividade burocrática, mas à salvaguarda da biodiversidade, à soberania ancestral e à resistência contínua contra dinâmicas de espoliação territorial. A problematização desse protagonismo exige conhecimento sobre as especificidades materiais e epistêmicas distanciadoras da atuação executiva urbana da militância socioambiental em territórios tradicionais.
A presença de brasileiras na alta gestão subiu de 37% para 37,7%, superando a média global de 32,9%, destacando um avanço dessa liderança feminina, porém, o Brasil ainda aparece entre os países com menor representatividade na penúltima posição entre 28 mercados analisados, com média de apenas 1,4 mulher por conselho de administração. Já a liderança indígena, apresenta uma conotação diferente de uma sociedade civíl comum, como menciono em meu livro “Aiyra e o Rio II: O Feminino Veste Cocar. Em nossa cultura, um líder fala por todos e na cultura de vocês, um líder fala por si, em prol do próprio benefício”.
Como uma mulher afro-indígena do povo Puri, nunca soube o que é ser só ‘mulher’. As pessoas sempre enxergaram a minha cor, antes do gênero. Os meus ancestrais paternos são da região da zona da mata mineira, do município de Barbacena (MG), distrito de Santa Bárbara do Tugúrio (MG). Assim, tenho ‘lugar de fala’ para fomentar a discussão sobre o fato de a vivência social de uma mulher afro-indígena, jamais será igual a de uma mulher branca, pois sempre será afetada pelo racismo, pela cidade e diversos outros atravessamentos influenciadores da identidade, gênero e ‘de nosso lugar no mundo’”.
A obra em lançamento aborda a liderança feminina indígena, retratando o cacicado feminino, majés, cacicas, parteiras, benzedeiras e conselheiras, entre outras lideranças indígenas, de vários povos. Elas representam a conexão da personagem e protagonista da obra, a cacica Aiyra, com o seu espírito de liderança, com a Mãe-Terra e com o seu povo.
A minha identidade de mulher, por exemplo, não está dissociada da indígena. Por isso, não sei falar como uma mulher, mas como uma pessoa do gênero feminino, vivenciando as lutas por meio de um corpo-território de identidade afro-indígena. Uma rápida pesquisa na internet revela que a mulher branca ganha menos que um homem branco, e a mulher negra ganha menos que essa mulher branca e a indígena ganha menos que ambas.
Ao escrever a continuação do primeiro livro “Aiyra e o Rio”, conversei com indígenas de outros povos e pesquisei em reconhecidas fontes científicas, identificando o machismo como um agravante de alguns povos. Até mencionei em meu novo livro, um trecho sobre isso: “Aiyra confronta o machismo como a sua primeira luta, ao assumir o cacicado: o Coaraci, membro indígena de seu povo disse a ela que o lugar da mulher indígena é na ‘cama e na boca do fogão’, o que fez a cacica Aiyra confrontá-lo: ‘você acha que saiu de onde? A sua primeira casa foi uma mulher!’”.
É impossível falar por mais de 300 povos indígenas se têm uma sociedade mais igualitária. Cada povo tem sua cultura, sua própria língua e sua forma de ver “os mundos” e as suas cosmovisões. Em relação ao povo indígena Puri, acredito que fomos afetados pelo pensamento colonizador e pela miscigenação, entre outras questões. Afinal, a cultura está em constante movimento e o Brasil foi tomado de diversas formas pelos colonizadores, desde 1500. Não se trata só da questão territorial, mas cultural e espiritual também.
Infelizmente, o machismo ainda está muito presente em nossa cultura. Por resistência, o Puri é um povo também em retomada. Retomada da língua e da cultura ancestral, o Tronco Linguístico é o Macro-Jê, assim como dos mais velhos que partiram desta terra, os encantados, como nos referimos. (Re)existimos ao tempo. Então, acredito que temos uma visão mais matriarcal e menos patriarcal do mundo. Acreditamos na MÃE-TERRA, na MÃE-ÁGUA, e respeitamos essa “Mãe”.
Dessa forma, qualquer literatura decolonial sobre uma narrativa afro-indígena é essencial como movimento para combinar a valorização da ancestralidade negra e dos povos originários, abordando a formação histórica, as cosmologias e a preservação da memória brasileira. Faço parte desse movimento de escritoras, precursoras de uma revolução literária afro-indígena para contar “nossa história”, evitando às falácias reproduzidas, inclusive por meio da educação básica, legitimando a identidade étnica de uma pessoa indígena apenas pelo seu estereótipo.
É importante lembrar que fomos afetados pela miscigenação, como a maioria dos brasileiros, alertando que meu livro não retrata a biografia dos legítimos povos indígenas ao redor de Uaçá (Karipuna, Palikur, Galibi-Marworno e Galibi-kalinã), assim como não é a biografia da nação indígena Zo’é e nem do povo Jenipapo-Kanindé. O livro é mais uma ação com ferramenta para se discutir a liderança feminina indígena e descolonizar o pensamento, ampliar os horizontes de estudos sobre as diversas cosmovisões de vários mundos, aceitando a diversidade e pluralidade do ser humano. É preciso entender que a natureza é diversa. A literatura decolonial e juvenil contribui com a educação e o letramento racial, apontando novos caminhos, novas narrativas, novas cosmovisões e recriando mundos. Por isso, acredito que possa contribuir com o olhar dos jovens perante a nossa cultura. Os escritores podem mudar pequenos mundos com sua literatura. A escrita tem o poder de recriar outras narrativas, outros “mundos”.
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