A qualidade da saúde mental do trabalhador brasileiro está cada vez pior. Os dados do Ministério da Previdência Social apontam um crescimento de 823% nos afastamentos por burnout, representando uma emergência de saúde nacional. Para se ter uma ideia, em 2021, 823 benefícios foram concedidos por burnout no Brasil, e 7.595, em 2025, a maior taxa histórica. Ao considerar todas as licenças envolvendo transtornos mentais, mais de meio milhão de benefícios foram concedidos, dentro de um total de 4 milhões, registrados no ano anterior, um novo recorde ao comparar os resultados a 2024 - ano do recorde. Apesar de cada vez mais comum, o burnout e seus efeitos ainda são pouco conhecidos.
A condição também é chamada de síndrome do esgotamento profissional, sendo um distúrbio emocional decorrente de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico. De acordo com a PHD em neurociências, psicanalista e psicopedagoga, Ângela Mathylde Soares, o problema é causado pela convivência constante com situações consideradas desgastantes, como o volume de trabalho, as responsabilidades, metas e, até mesmo, os assédios, sexual ou moral.
Apesar de acometer qualquer tipo de trabalhador, as profissões mais atingidas estão na área da saúde, envolvendo médicos e enfermeiros - educadores, policiais, bombeiros, bancários, profissionais de TI e operadores de telemarketing. As ocupações apresentam características comuns, como alta carga horária, metas a serem cumpridas, luto constante e o risco de vida, demandando constante vigilância.
Os sinais mais frequentes são cansaço e fadiga excessivos, físico e mental, gerando dores de cabeça, mudanças de humor, alteração nos batimentos cardíacos, apetite, baixa concentração, problemas gastrointestinais, isolamento, pensamentos negativos (incompetência, insegurança e fracasso) e dores musculares.
Apesar dos elevados resultados, o burnout não é o único distúrbio mental entre os trabalhadores brasileiros. Ângela recorda que a ansiedade e depressão também são cada vez mais comuns, a ponto de a Organização Mundial da Saúde (OMS), classificar o Brasil como o país mais ansioso do mundo e o mais depressivo na América Latina. É por isso que os problemas mentais se tornaram o segundo maior motivo de afastamento, atrás apenas de problemas na coluna.
A negligência do cuidado causa doenças e intensifica aquelas já existentes, tornando o tratamento mais trabalhoso e o sofrimento mais duradouro. Entretanto, não foram apenas os afastamentos que cresceram. As denúncias também. Em 2021, apenas 109 queixas sobre as condições de trabalho foram registradas. Já em 2025, as reclamações chegaram a 1022. “A realidade pode ser ainda mais grave, contudo, deve ser considerada uma vitória, pois o processo demonstra funcionários mais informados sobre seus direitos e corajosos para denunciarem abusos”, recorda a especialista.
Vale recordar que após adiamento de um ano sob pressão empresarial, as novas diretrizes da Norma Regulamentadora (NR-1) entram em vigor neste 26 de maio. As diretrizes devem contribuir contra a exploração e assédio nas empresas, obrigando o detalhamento com documentos de segurança e outros aspectos, apresentando os riscos do exercício da profissão e que ameaçam a saúde mental da equipe.
A proposta é restringir os fatores impactantes mentais para proporcionar maior qualidade de vida aos empregados. Enquanto isso, cabe aos servidores, conhecerem os gatilhos cotidianos para estarem atentos a seus direitos.
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