Um filho não se perde fora de casa, mas quando não é encontrado dentro dela. Acreditar que são os amigos da rua, a internet ou o mundo que “desviam” os filhos já é algo considerado confortável, feito para aliviar consciências, mas não muda a realidade que, muitas vezes, o problema está no próprio lar.
Para a neurociência - área que estuda o sistema nervoso, suas funcionalidades e influências em aspectos comportamentais e emocionais - o cérebro se organiza a partir das primeiras relações no ambiente familiar, responsável por orientar escolhas, limites e vínculos. Desta forma, a neurocientista, psicanalista e psicopedagoga, Ângela Mathylde Soares, explica que um filho não se perde em más companhias e, sim, pela falta de referência, escuta e segurança emocional em casa.
O cérebro social é programado para se vincular, então, quando não há diálogo, presença afetiva ou previsibilidade emocional, instala-se um estado silencioso de carência neuroafetiva. A ausência reorganiza o funcionamento cerebral e o jovem passa a buscar fora aquilo que deveria ter sido consolidado dentro: reconhecimento, acolhimento, identidade.
Ninguém abandona um ambiente em que é visto, ouvido e amado. “Quando o lar se torna apenas um espaço físico — sem trocas, sem tempo, sem afeto — o cérebro entra em modo de sobrevivência emocional e se adapta”, afirma.
O mito da autoridade baseada no medo ou no excesso de controle também deve ser desconstruído. A neurociência mostra que cérebros educados apenas pela punição não desenvolvem consciência, apenas estratégias de fuga. Já o córtex pré-frontal, responsável por decisões éticas e autocontrole, somente amadurece em ambientes com limites firmes e afeto, e não, ameaças constantes.
Ângela recorda que os pais não precisam ser heróis, entretanto, devem ser referência emocional estável. A família precisa ser uma figura de presença, com a capacidade de pedir desculpas, de ouvir, e orientar, sem humilhar ou interromper, ou seja, um espaço seguro, de afeto e aprendizado. Educar é, antes de tudo, habitar emocionalmente a vida do outro.
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