O título original do artigo, publicado no site da Academia Americana de Oftalmologia (AAO), em setembro de 2022, chama a atenção dos oftalmologistas para a necessidade de aprofundar seus conhecimentos no grupo de sinais e sintomas visuais que acompanham a síndrome da enxaqueca visual e também em seu tratamento, usando filtros espectrais.
A enxaqueca é uma doença neurológica comum e pode causar sintomas visuais significativos, em alguns pacientes. Embora as manifestações visuais da enxaqueca, incluindo fotofobia, visão borrada, halos visuais e escotoma, sejam bem conhecidas, os oftalmologistas, nem sempre, consideram esse diagnóstico em pacientes com queixas visuais.
No entanto, em alguns casos, a enxaqueca pode ser a causa primária ou contribuir para sintomas oftalmológicos, daí a importância de os oftalmologistas estarem familiarizados com essa condição.
A enxaqueca afeta cerca de 12% da população, com prevalência três vezes maior em mulheres. As enxaquecas se caracterizam por ataques recorrentes de dor moderada a severa, geralmente na região da nuca, têmporas ou fronte, associadas a outros sintomas neurológicos, como náusea, vômitos, fotofobia e visão borrada. As crises podem durar de 4 a 72 horas, se não tratadas.
O tratamento da enxaqueca foca na prevenção e alívio dos sintomas. Segundo a Academia Americana de Oftalmologia, os oftalmologistas devem compreender a enxaqueca e suas manifestações visuais para evitar intervenções desnecessárias e procedimentos diagnósticos dispendiosos, quando os sintomas visuais forem associados à enxaqueca. Com o tratamento adequado, os sintomas visuais tendem a diminuir ou desaparecer.
A Academia Americana de Oftalmologia recomenda aos oftalmologistas, no caso de pacientes com queixas visuais relacionadas à enxaqueca:
Considere a enxaqueca como possível diagnóstico, especialmente em mulheres. Os sintomas visuais como fotofobia, visão borrada, halos e escotomas podem ser secundários à crise de enxaqueca.
Exclua outras causas orgânicas para esses sintomas visuais, através de exames oftalmológicos apropriados, por exemplo: oftalmoscopia, tomografia de coerência óptica, angiografia e perimetria. Isso é importante para tranquilizar o paciente e evitar tratamentos desnecessários.
Compreenda que o tratamento dos sintomas visuais e importante no tratamento e prevenção dos próximos episódios.
Colabore com neurologistas e outros especialistas, quando necessário para o manejo eficaz de pacientes com enxaqueca e sintomas visuais significativos.
A fotofobia é o sintoma mais desconfortável. Em uma mesa redonda, realizada ainda na Academia Americana de Oftalmologia, (link no final do texto), a Dra. Kathleen Digre, neuro-oftalmologista recomenda o seguinte, sobre o uso de filtros espectrais no tratamento da fotofobia (sensibilidade à luz), associado à enxaqueca:
Os filtros espectrais (lentes especiais que filtram/bloqueiam a faixa específica do espectro de luz visível ao olho humano) bloqueiam a luz azul, principal responsável pela fotofobia. Eles preservam a visão natural e a acuidade visual.
A eficácia dos filtros espectrais varia, conforme cada paciente. É preciso experimentar para determinar a eficácia individual.
Os filtros são seguros e podem ser usados com ou sem medicação. Eles não interferem com tratamentos medicamentosos para enxaqueca ou outros problemas.
O custo dos filtros espectrais pode ser uma barreira para alguns pacientes. No entanto, eles são de uso contínuo e podem durar vários anos com o uso regular. O custo diário pode ser muito baixo.
A Dra. Digre K. recomenda discutir o uso de filtros espectrais com qualquer paciente com enxaqueca e importante fotofobia que perturba a qualidade de vida. Eles podem proporcionar um alívio significativo dos sintomas.
Antes da descoberta das células fotossensíveis IPRGC na retina, as pessoas com enxaqueca visual e fotofobia intensas, contavam apenas com medicação para aliviar os sintomas, sem nenhum recurso realmente direcionado ao mecanismo visual subjacente.
Após o avanço no conhecimento dessas células fotossensíveis, foi possível bloquear seletivamente a estimulação luminosa das mesmas, reduzindo drasticamente a fotofobia, sem comprometer a visão.
O Dr. Peter Good, neurofisiologista de Birmingham, foi o primeiro a usá-lo para fotofobia e enxaqueca. No início dos anos 1990, a Dra. Kathleen Digre, da Universidade de Utah, começou a usar o filtro espectral FL-41, em alguns de seus pacientes com sucesso.
Os resultados significativos e a simples manipulação dos filtros espectrais popularizaram seu uso, tornando-o uma opção terapêutica amplamente conhecida e utilizada. Contando com um mecanismo visual claro como alvo, representa um marco na gestão da fotofobia, associada à enxaqueca, proporcionando alívio substancial da sintomatologia e melhor qualidade de vida.
*** Ricardo Guimarães – Diretor Técnico do Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães
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