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Quarta-feira, 20 de Maio 2026
Notícias/Direitos Humanos

Moradores de comunidades reprovam operações violentas em larga escala

Pesquisa revela que nove em cada dez residentes de quatro favelas do Rio de Janeiro desaprovam confrontos armados em ações policiais.

Moradores de comunidades reprovam operações violentas em larga escala
© Joédson Alves/Agência Brasil
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Nove em cada dez residentes de comunidades do Rio de Janeiro desaprovam operações policiais que resultam em confronto armado, conforme o modelo implementado nos últimos anos na capital fluminense. Esta constatação emerge de uma pesquisa pioneira conduzida por seis organizações da sociedade civil, que investigou a percepção de moradores sobre essas ações.

O levantamento, intitulado "Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?", foi divulgado nesta quarta-feira (20) e entrevistou presencialmente 4.080 pessoas. As entrevistas ocorreram em janeiro deste ano em quatro grandes comunidades: Complexo do Alemão, Complexo da Penha e Maré, na zona norte, e Rocinha, na zona sul, com 1.020 participantes em cada local. Eliana Sousa Silva, diretora fundadora da Redes da Maré, coordenou o estudo.

Brutalidade e Ilegalidade Percebidas

Os resultados indicam que 73% dos entrevistados não concordam com o atual modus operandi das operações policiais, enquanto apenas 25% manifestaram concordância. Ao serem questionados sobre a continuidade do modelo atual, 92% reprovaram a abordagem. Desses, 68% defendem que as operações sejam realizadas de outra maneira, e 24% acreditam que tais ações não deveriam ocorrer em favelas.

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Mesmo entre os que apoiam as operações, apenas 20% defendem o modelo vigente. Eliana Silva ressalta a importância de contextualizar essa percepção, pois a ideia de que o confronto armado é a única forma de combater o crime nessas áreas pode ser generalizada sem considerar o impacto real na vida dos moradores.

Um dado alarmante é que 91% dos moradores percebem excessos e ilegalidades por parte da polícia durante as operações. Essa percepção é compartilhada por 85% daqueles que, de alguma forma, apoiam as ações. Para 90% dos entrevistados, tais excessos são inaceitáveis, com 95% dos que discordam das operações repudiando a brutalidade policial.

Mesmo entre os que concordam com as operações, 74% condenam os excessos, evidenciando que o apoio à ação policial não se traduz em aceitação da violência. Eliana Silva enfatiza que a solução para o crime organizado requer uma visão mais ampla e coletiva da cidade, em vez de focar unicamente nas favelas, uma visão que, segundo ela, é frequentemente reforçada pela mídia.

Impacto na Vida Comunitária

O objetivo central do levantamento é analisar como o combate ao crime afeta diretamente os residentes das comunidades, muitos dos quais têm sua rotina de trabalho e estudo comprometida. Desde 2016, organizações comunitárias atuantes nessas áreas buscam compreender e documentar os impactos desses confrontos.

Eliana Silva observa uma escalada na violência e na naturalização dos enfrentamentos, citando o impacto na educação. No Complexo da Maré, por exemplo, escolas que atendem 140 mil habitantes frequentemente fecham por longos períodos, prejudicando o aprendizado.

A pesquisa visa reafirmar o direito à cidade para os moradores dessas comunidades. A restrição de circulação é o impacto mais citado, afetando 51% dos que discordam das operações e 41,5% dos que concordam. Seguem-se invasões de domicílio ou estabelecimentos (37,5% e 22,9%, respectivamente) e tiroteios recorrentes (30,5% e 20,7%).

Alternativas e Racismo Estrutural

A letalidade na Maré aumentou 58% em 2025 em relação ao ano anterior, o que leva Eliana Sousa Silva a defender alternativas ao uso de armas e fuzis no combate ao crime. Ela critica o direcionamento de emendas parlamentares para a compra de armamentos, argumentando que recursos públicos deveriam ser investidos em políticas sociais.

A diretora fundadora da Redes da Maré reforça que a operação mais letal na capital, ocorrida em outubro do ano passado nos complexos do Alemão e da Penha com 122 mortos, demonstrou que os moradores de favela não endossam esse tipo de confronto. A maioria (85%) dos entrevistados rejeita a repetição de operações semelhantes.

Com o ano eleitoral em curso, a segurança pública ganha destaque. Eliana Silva alerta para candidatos que propõem soluções violentas sem considerar o morador, defendendo que o eleitor analise propostas e desconfie de promessas simplistas.

A pesquisa também aborda o racismo estrutural, com 61% dos entrevistados percebendo racismo nas operações. A discordância com as operações é maior entre pessoas pretas (81%), enquanto a concordância atinge 30% entre brancos. Jovens (18-29 anos) são os mais resistentes, com 79% de oposição, possivelmente devido à maior exposição à violência.

Medo e Dupla Violência

O medo da polícia é um sentimento predominante, declarado por 78% dos moradores, atingindo 85% entre os contrários às operações. Há uma inversão na percepção do papel do Estado, com 50% expressando indignação com as operações. Entre os que concordam com as ações, o medo da polícia (59%) supera o medo de grupos armados (53%).

Isso revela que moradores de favelas convivem com duas fontes de violência: a policial e a criminal. As organizações responsáveis pela pesquisa são Fala Roça (Rocinha), Frente Penha, Instituto Papo Reto (Alemão), Instituto Raízes em Movimento (Alemão), Redes da Maré e A Rocinha Resiste. O estudo contou com o apoio de diversas instituições acadêmicas e fundações, como a UFRJ, UFF e Open Society Foundations.

FONTE/CRÉDITOS: Alana Gandra – repórter da Agência Brasil

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