Nove em cada dez residentes de comunidades do Rio de Janeiro desaprovam operações policiais que resultam em confronto armado, conforme o modelo implementado nos últimos anos na capital fluminense. Esta constatação emerge de uma pesquisa pioneira conduzida por seis organizações da sociedade civil, que investigou a percepção de moradores sobre essas ações.
O levantamento, intitulado "Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?", foi divulgado nesta quarta-feira (20) e entrevistou presencialmente 4.080 pessoas. As entrevistas ocorreram em janeiro deste ano em quatro grandes comunidades: Complexo do Alemão, Complexo da Penha e Maré, na zona norte, e Rocinha, na zona sul, com 1.020 participantes em cada local. Eliana Sousa Silva, diretora fundadora da Redes da Maré, coordenou o estudo.
Brutalidade e Ilegalidade Percebidas
Os resultados indicam que 73% dos entrevistados não concordam com o atual modus operandi das operações policiais, enquanto apenas 25% manifestaram concordância. Ao serem questionados sobre a continuidade do modelo atual, 92% reprovaram a abordagem. Desses, 68% defendem que as operações sejam realizadas de outra maneira, e 24% acreditam que tais ações não deveriam ocorrer em favelas.
Mesmo entre os que apoiam as operações, apenas 20% defendem o modelo vigente. Eliana Silva ressalta a importância de contextualizar essa percepção, pois a ideia de que o confronto armado é a única forma de combater o crime nessas áreas pode ser generalizada sem considerar o impacto real na vida dos moradores.
Um dado alarmante é que 91% dos moradores percebem excessos e ilegalidades por parte da polícia durante as operações. Essa percepção é compartilhada por 85% daqueles que, de alguma forma, apoiam as ações. Para 90% dos entrevistados, tais excessos são inaceitáveis, com 95% dos que discordam das operações repudiando a brutalidade policial.
Mesmo entre os que concordam com as operações, 74% condenam os excessos, evidenciando que o apoio à ação policial não se traduz em aceitação da violência. Eliana Silva enfatiza que a solução para o crime organizado requer uma visão mais ampla e coletiva da cidade, em vez de focar unicamente nas favelas, uma visão que, segundo ela, é frequentemente reforçada pela mídia.
Impacto na Vida Comunitária
O objetivo central do levantamento é analisar como o combate ao crime afeta diretamente os residentes das comunidades, muitos dos quais têm sua rotina de trabalho e estudo comprometida. Desde 2016, organizações comunitárias atuantes nessas áreas buscam compreender e documentar os impactos desses confrontos.
Eliana Silva observa uma escalada na violência e na naturalização dos enfrentamentos, citando o impacto na educação. No Complexo da Maré, por exemplo, escolas que atendem 140 mil habitantes frequentemente fecham por longos períodos, prejudicando o aprendizado.
A pesquisa visa reafirmar o direito à cidade para os moradores dessas comunidades. A restrição de circulação é o impacto mais citado, afetando 51% dos que discordam das operações e 41,5% dos que concordam. Seguem-se invasões de domicílio ou estabelecimentos (37,5% e 22,9%, respectivamente) e tiroteios recorrentes (30,5% e 20,7%).
Alternativas e Racismo Estrutural
A letalidade na Maré aumentou 58% em 2025 em relação ao ano anterior, o que leva Eliana Sousa Silva a defender alternativas ao uso de armas e fuzis no combate ao crime. Ela critica o direcionamento de emendas parlamentares para a compra de armamentos, argumentando que recursos públicos deveriam ser investidos em políticas sociais.
A diretora fundadora da Redes da Maré reforça que a operação mais letal na capital, ocorrida em outubro do ano passado nos complexos do Alemão e da Penha com 122 mortos, demonstrou que os moradores de favela não endossam esse tipo de confronto. A maioria (85%) dos entrevistados rejeita a repetição de operações semelhantes.
Com o ano eleitoral em curso, a segurança pública ganha destaque. Eliana Silva alerta para candidatos que propõem soluções violentas sem considerar o morador, defendendo que o eleitor analise propostas e desconfie de promessas simplistas.
A pesquisa também aborda o racismo estrutural, com 61% dos entrevistados percebendo racismo nas operações. A discordância com as operações é maior entre pessoas pretas (81%), enquanto a concordância atinge 30% entre brancos. Jovens (18-29 anos) são os mais resistentes, com 79% de oposição, possivelmente devido à maior exposição à violência.
Medo e Dupla Violência
O medo da polícia é um sentimento predominante, declarado por 78% dos moradores, atingindo 85% entre os contrários às operações. Há uma inversão na percepção do papel do Estado, com 50% expressando indignação com as operações. Entre os que concordam com as ações, o medo da polícia (59%) supera o medo de grupos armados (53%).
Isso revela que moradores de favelas convivem com duas fontes de violência: a policial e a criminal. As organizações responsáveis pela pesquisa são Fala Roça (Rocinha), Frente Penha, Instituto Papo Reto (Alemão), Instituto Raízes em Movimento (Alemão), Redes da Maré e A Rocinha Resiste. O estudo contou com o apoio de diversas instituições acadêmicas e fundações, como a UFRJ, UFF e Open Society Foundations.
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