Os sinais e sintomas do transtorno por uso de substâncias podem variar bastante de pessoa para pessoa e englobam aspectos físicos, psicológicos e comportamentais.
Se você ou alguém próximo usa substâncias como álcool, tabaco ou opioides de forma recorrente e isso está afetando negativamente sua vida ou a de outros, é possível que o transtorno por uso de substâncias (TUS) esteja em jogo.
O TUS é uma condição complexa que afeta milhões de pessoas ao redor do mundo, incluindo o Brasil.
Estima-se que cerca de 12 milhões de brasileiros apresentem algum grau de dependência ou uso problemático de substâncias. Esse número é considerável, sendo superior ao total de pessoas que enfrentam doenças como câncer em estágios iniciais.
Embora muitas pessoas acreditem que o TUS seja causado apenas por comportamentos ou falta de força de vontade, isso não é verdade.
Fatores biológicos, que estão além do controle do indivíduo, desempenham um papel fundamental no desenvolvimento do transtorno.
A ativação do centro de recompensa do cérebro é o principal responsável por grande parte das adições.
O prazer gerado pelo consumo, envolvendo a liberação anormalmente alta de dopamina, pode ser extremamente difícil de resistir.
O uso contínuo da substância pode causar alterações na estrutura e funcionamento do cérebro.
Isso pode resultar em desejos intensos de consumir a substância, sintomas de abstinência, problemas de memória e aprendizagem, além de mudanças de personalidade.
Reconhecer os sinais e sintomas do transtorno por uso de substâncias é o primeiro passo para buscar ajuda e iniciar o tratamento.
Tipos de transtorno por uso de substâncias
Indivíduos podem desenvolver transtornos por uso de substâncias em relação a várias substâncias, incluindo:
- Álcool;
- Maconha;
- Alucinógenos, como LSD e fenciclidina;
- Inalantes;
- Opioides, como heroína ou medicamentos prescritos;
- Sedativos, hipnóticos (medicamentos para induzir o sono) ou ansiolíticos (medicamentos para ansiedade);
- Estimulantes como anfetaminas ou cocaína;
- Tabaco.
A dependência de duas ou mais substâncias é comum. Por exemplo, entre as pessoas com transtorno:
- Mais de 66% também têm dependência de nicotina;
- Quase 25% têm transtorno por uso de álcool;
- Mais de 20% têm transtorno por uso de cocaína.
Da mesma forma, entre as pessoas com transtorno por uso de cocaína:
- Quase 60% têm transtorno por uso de álcool;
- Cerca de 48% são dependentes de nicotina;
- Mais de 21% têm transtorno por uso de maconha.
Sinais e sintomas do transtorno por uso de substâncias
Os sinais e sintomas do transtorno por uso de substâncias podem variar amplamente de pessoa para pessoa, dependendo da substância, da duração e da gravidade do uso, além da personalidade de cada indivíduo.
Abaixo estão alguns dos sintomas gerais associados ao transtorno por uso de substâncias.
Sinais físicos do transtorno por uso de substâncias
- Perda ou ganho de peso repentino;
- Pupilas menores ou maiores do que o normal;
- Olhos vermelhos;
- Mudanças no apetite e nos padrões de sono;
- Fala arrastada;
- Coordenação prejudicada ou tremores;
- Deterioração da aparência física ou mudanças nos cuidados pessoais;
- Nariz escorrendo;
- Cheiros incomuns no hálito, corpo ou roupas.
Sinais psicológicos do transtorno por uso de substâncias
- Sensação de paranoia, ansiedade ou medo;
- Mudança inexplicável de personalidade;
- Sentir-se “desconectado” ou afastado;
- Falta de motivação;
- Fadiga excessiva;
- Períodos de energia excessiva, instabilidade mental ou inquietação;
- Mudanças de humor repentinas;
- Aumento da agitação ou raiva.
Sinais psicológicos do transtorno por uso de substâncias
- Ações secretas ou suspeitas;
- Problemas nos relacionamentos devido ao uso da substância;
- Uso em quantidades maiores do que o inicialmente planejado (incapacidade de controlar o uso);
- Negligência de família e amizades, além de responsabilidades no trabalho, escola ou em casa;
- Problemas legais, como dirigir sob efeito de substância, brigas ou acidentes;
- Mudança repentina de hobbies, amigos ou atividades;
- Uso de substância em condições perigosas, como relações sexuais sem proteção, dirigir sob efeito ou usar seringas não esterilizadas;
- Problemas financeiros inexplicáveis, que podem incluir pedir dinheiro com frequência ou furtar;
- Tentativas frequentes de evitar ou aliviar os sintomas de abstinência;
- Aumento da tolerância à substância, o que leva a um consumo cada vez maior;
- A vida passa a girar em torno do uso da substância, sempre pensando em como conseguir mais ou se recuperando do uso;
- Perda de interesse em atividades antes prazerosas devido ao uso da substância;
- Continuar a usar a substância apesar das consequências negativas para a saúde.
Como o transtorno por uso de substâncias é diagnosticado?
Para avaliar o risco de um indivíduo desenvolver transtorno por uso de substâncias (TUS), um profissional de saúde pode começar com uma triagem inicial.
Esse processo pode ser seguido por uma avaliação mais detalhada e um encaminhamento para um conselheiro especializado em álcool e drogas, psicólogo ou psiquiatra.
Um questionário amplamente utilizado para triagem do uso de substâncias é o questionário UNCOPE.
Embora tenha sido originalmente desenvolvido com base na quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-4), estudos mostram que ele também pode ajudar a identificar o TUS conforme a quinta edição do manual (DSM-5).
O questionário UNCOPE contém as seguintes perguntas:
- Você tem usado álcool ou drogas por mais tempo do que planejou inicialmente?
- Você já negligenciou algumas responsabilidades devido ao uso de substâncias?
- Você já tentou reduzir ou parar de usar a substância, mas não conseguiu?
- Alguém já lhe disse que desaprova seu uso de álcool ou drogas?
- Você já se pegou pensando constantemente em usar álcool ou drogas?
- Você já usou álcool ou drogas para aliviar a dor emocional, como tristeza, raiva ou tédio?
Para uma avaliação mais abrangente e o diagnóstico do transtorno por uso de substâncias, a maioria dos profissionais de saúde segue os 11 critérios publicados no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), que incluem:
- Sentir que precisa consumir a substância regularmente (diariamente ou várias vezes ao dia) e mais do que planejou inicialmente;
- Passar uma grande parte do tempo buscando, usando e/ou se recuperando do uso da substância;
- Desejo intenso pela substância;
- Necessidade de mais da substância para obter o mesmo efeito (tolerância);
- Experimentar sintomas de abstinência quando para de usar a substância;
- Ser incapaz de cumprir obrigações em casa, no trabalho ou na escola devido ao uso da substância;
- Pensamentos recorrentes de parar de usar, mas sem conseguir;
- Continuar a usar, apesar dos problemas que isso causa nos relacionamentos;
- Continuar a usar, apesar dos problemas mentais ou físicos causados, ou agravados pela substância;
- Deixar de lado ou reduzir atividades sociais, ou recreativas devido ao uso da substância;
- Usar a substância em situações perigosas, como dirigir sob efeito ou usar seringas não esterilizadas.
O transtorno por uso de substâncias pode ser classificado como leve, moderado ou grave, com base no número de sintomas apresentados por uma pessoa dentro de um período de 12 meses.
De acordo com o DSM-5, um indivíduo deve apresentar os seguintes números de sintomas para ser diagnosticado com TUS:
- Leve: 2–3 sintomas;
- Moderado: 4–5 sintomas;
- Grave: 6 ou mais sintomas.
Diagnóstico duplo
O diagnóstico se torna mais complexo quando a pessoa apresenta tanto o transtorno por uso de substâncias quanto uma condição de saúde mental, conhecido como diagnóstico duplo.
Isso ocorre porque é frequentemente difícil distinguir os sintomas que se sobrepõem, como os sintomas de abstinência e os de doenças mentais.
Pessoas com diagnóstico duplo frequentemente apresentam sintomas mais graves, persistentes e resistentes ao tratamento em comparação com aqueles que possuem apenas o transtorno por uso de substâncias.
Os sinais e sintomas do transtorno por uso de substâncias podem variar, mas os mais comuns incluem desinteresse em atividades como escola e trabalho, problemas de saúde física (como olhos vermelhos, falta de energia e variação de peso), desleixo com a aparência, mudanças comportamentais (como agir de maneira secreta, irritabilidade ou paranoia), e dificuldades financeiras.
Reconhecer esses sinais é o primeiro passo para a recuperação. Se você suspeita que alguém próximo ou você mesmo possa ter o transtorno por uso de substâncias, procurar um profissional de saúde para avaliação é essencial.
Caso ainda não esteja pronto para buscar ajuda profissional, procure organizações que oferecem recursos e grupos de apoio no Brasil, como:
- CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), unidades do SUS que oferecem suporte e tratamento para pessoas com transtornos mentais e uso problemático de substâncias.
- AA (Alcoólicos Anônimos), grupo de apoio para pessoas que buscam se recuperar da dependência do álcool, com a abordagem dos 12 passos.
- NA (Narcóticos Anônimos), grupo similar ao AA, mas voltado para dependentes de drogas, com apoio em sua recuperação.
- Rehab Serviços e clínicas especializadas, que oferecem tratamentos específicos para dependência de substâncias, com acompanhamento profissional.
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