Poucas comédias românticas conseguiram atingir o status de fenômeno cultural global como o clássico protagonizado por Julia Roberts e Richard Gere em 1990. A história moderna de Cinderela não apenas alçou seus protagonistas ao estrelato absoluto, mas também redefiniu as regras do gênero para as décadas seguintes. Ao decidir assistir ao pretty woman filme hoje, é fácil se deixar levar pelo glamour e pelo romance, mas o que muitos espectadores não sabem é que os bastidores dessa produção foram marcados por improvisos, mudanças drásticas de roteiro e escolhas de elenco que poderiam ter resultado em um longa-metragem completamente diferente.
De um drama sombrio ao conto de fadas
Talvez a curiosidade mais chocante sobre esta obra seja o seu roteiro original. Inicialmente intitulado "3.000" — uma referência ao valor pago pelos serviços da protagonista —, o projeto não foi concebido como uma comédia romântica leve, mas sim como um drama sombrio e realista sobre o submundo de Los Angeles. Na primeira versão escrita por J.F. Lawton, a personagem Vivian Ward lutava contra o vício em drogas e o desfecho estava longe do "felizes para sempre" que conhecemos.
No final original, não havia cavaleiro de armadura brilhante subindo a escada de incêndio com flores. Edward Lewis, o empresário, simplesmente jogava Vivian para fora do carro em um beco sujo, atirando o dinheiro nela antes de ir embora. A transformação do roteiro ocorreu quando a Disney adquiriu os direitos e o diretor Garry Marshall assumiu o comando. Ele percebeu que a química entre os atores pedia algo mais esperançoso e trabalhou intensamente para suavizar as arestas, transformando uma tragédia urbana em uma fábula moderna de amor e redenção.
A dança das cadeiras no elenco
É praticamente impossível imaginar outros rostos interpretando Vivian e Edward, mas a realidade é que Julia Roberts e Richard Gere não foram as primeiras opções do estúdio. Para o papel do magnata corporativo, nomes de peso da época como Al Pacino e Burt Reynolds foram sondados. Pacino chegou a fazer leituras de roteiro com Roberts, mas acabou recusando o papel, o que abriu caminho para Gere, que inicialmente também não estava interessado, mas foi convencido pela jovem atriz através de um bilhete pedindo para que ele aceitasse o trabalho.
Do lado feminino, a disputa foi ainda mais acirrada. Atrizes consagradas como Michelle Pfeiffer, Meg Ryan e Molly Ringwald foram consideradas para viver a protagonista. Muitas recusaram o papel justamente por causa do tom original do roteiro ou por considerarem a personagem controversa. A escolha de Julia Roberts, que na época não era a superestrela que é hoje, foi uma aposta de risco do diretor. Essa aposta acabou se pagando, já que sua performance carismática e sorriso inconfundível se tornaram a alma do projeto, garantindo-lhe uma indicação ao Oscar e o status de "Namoradinha da América".
A improvisação que entrou para a história
Uma das cenas mais famosas e reproduzidas da história do cinema aconteceu de forma totalmente espontânea. O momento em que Edward apresenta um colar de diamantes para Vivian e, inesperadamente, fecha a caixa sobre os dedos dela, fazendo-a soltar uma gargalhada genuína, não estava no script. Richard Gere decidiu fazer uma brincadeira para acordar a atriz, que estava um pouco cansada após longas horas de filmagem, e a reação de surpresa dela foi tão autêntica e encantadora que o diretor decidiu mantê-la no corte final.
Essa cena sintetiza perfeitamente a dinâmica entre os dois: a sofisticação dele contrastando com a espontaneidade dela. Além disso, o colar em questão era real e extremamente valioso. A joia, avaliada em um quarto de milhão de dólares na época, era tão preciosa que a joalheria enviou um guarda-costas armado que ficou presente no set durante toda a gravação da cena, garantindo que o item não desaparecesse misteriosamente entre um take e outro.
O vestido vermelho e os truques do pôster
O impacto visual do filme é inegável, especialmente no que tange ao figurino. O vestido vermelho usado na cena da ópera se tornou um ícone da moda, mas ele quase não existiu. A figurinista Marilyn Vance teve que lutar contra a vontade do estúdio, que insistia em um vestido preto, argumentando que seria mais elegante. Vance, no entanto, sabia que o vermelho simbolizava a paixão e a transformação final da personagem. Após vários testes de câmera e três criações diferentes, ela conseguiu convencer a produção, e o resultado entrou para a história dos trajes mais memoráveis de Hollywood.
Outro detalhe visual curioso reside no pôster oficial do filme. Embora vejamos os rostos de Richard Gere e Julia Roberts, os corpos não correspondem totalmente à realidade. O corpo de Vivian no cartaz pertence, na verdade, à dublê de corpo Shelley Michelle, com a cabeça de Roberts sobreposta digitalmente — uma prática comum na época, mas feita de forma bastante óbvia para os padrões atuais. Além disso, no pôster, o cabelo de Richard Gere aparece castanho escuro, enquanto no filme ele ostenta seus famosos fios grisalhos, uma decisão de marketing para fazê-lo parecer mais jovem na imagem promocional.
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